O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

CAPÍTULO IX

BEM AVENTURADOS OS QUE SÃO BRANDOS E PACÍFICOS

Instruções dos Espíritos

A PACIÊNCIA

Um Espírito Amigo, Havre, 1862

7. A dor é uma bênção que Deus envia a seus eleitos; não vos aflijais, pois, quando sofrerdes; antes, bendizei de Deus onipotente que, pela dor, neste mundo, vos marcou para a glória no céu.

Sede pacientes. A paciência também é uma caridade e deveis praticar a lei de caridade ensinada pelo Cristo, enviado de Deus. A caridade que consiste na esmola dada aos pobres é a mais fácil de todas. Outra há, porém, muito mais penosa e, conseguintemente, muito mais meritória: a de perdoarmos aos que Deus colocou em nosso caminho para serem instrumentos do nosso sofrer e para nos porem à prova a paciência.

A vida é difícil, bem o sei, compõe-se de mil nadas, que são outras tantas picadas de alfinetes, mas que acabam por ferir. Se, porém, atentarmos nos deveres que nos são impostos, nas consolações e compensações que, por outro lado, recebemos, havemos de reconhecer que são as bênçãos muito mais numerosas do que as dores. O fardo parece menos pesado, quando se olha para o alto, do que quando se curva para a terra a fronte.

Coragem, amigos! Tendes no Cristo o vosso modelo. Mais sofreu Ele do que qualquer de vós e nada tinha de que se penitenciar, ao passo que vós tendes de expiar o vosso passado e de vos fortalecer para o futuro. Sede, pois, pacientes, sede cristãos. Essa palavra resume tudo.

Comentário:

Meus irmãos, que a paz do Cristo esteja conosco.

Neste capítulo, os Espíritos nos trazem uma reflexão profunda sobre a paciência, apresentada não como resignação passiva, mas como uma virtude ativa, consciente e transformadora.

O Espírito Amigo, em Havre, no ano de 1862, inicia dizendo que a dor é uma bênção que Deus envia a seus eleitos. Essa afirmação pode, à primeira vista, causar estranheza, pois estamos acostumados a ver a dor apenas como sofrimento. Contudo, à luz do Espiritismo, compreendemos que a dor tem uma função educativa e regeneradora. Ela não é castigo, mas instrumento de crescimento espiritual.

Quando o texto nos convida a bendizer a Deus nos momentos de sofrimento, não está negando a dor humana, mas nos chamando a enxergar além dela. A dor, quando compreendida e aceita com fé, nos marca para a glória futura, pois contribui para o nosso aprimoramento moral e espiritual.

Em seguida, o Espírito destaca que a paciência também é uma forma de caridade. Isso amplia nosso entendimento sobre o que realmente significa ser caridoso. Muitas vezes pensamos que caridade se resume à esmola material, que é importante, mas considerada pelo texto como a mais fácil de todas. Existe, porém, uma caridade muito mais difícil e, por isso mesmo, mais meritória: perdoar aqueles que nos ferem, que nos contrariam e que são, muitas vezes, os instrumentos das provas que precisamos enfrentar.

Essas pessoas não surgem em nosso caminho por acaso. Elas se tornam oportunidades de aprendizado, convidando-nos a exercitar a tolerância, o perdão e, sobretudo, a paciência. É nesse ponto que a paciência deixa de ser passividade e passa a ser força moral, domínio de si mesmo e confiança na justiça divina.

O texto nos lembra ainda que a vida é difícil, composta de pequenos problemas diários, comparados a “picadas de alfinetes”. São situações aparentemente simples, mas que, acumuladas, nos cansam, nos ferem e testam nossa serenidade. Porém, quando equilibramos o olhar, percebemos que as bênçãos são muito mais numerosas do que as dores.

O fardo da vida se torna mais leve quando olhamos para o alto, quando elevamos nossos pensamentos a Deus, em vez de nos fixarmos apenas nas dificuldades terrenas. A fé amplia nossa visão e nos ajuda a compreender que nada ocorre sem um propósito maior.

Por fim, o Espírito nos convida à coragem e nos apresenta o Cristo como modelo supremo. Jesus sofreu mais do que qualquer um de nós e, ainda assim, não tinha faltas a expiar. Nós, ao contrário, trazemos um passado a ser reparado e um futuro a ser construído. Por isso, nossas dores têm sentido, nossas lutas têm finalidade e nossas provas têm prazo.

Encerrando, o ensinamento é claro e profundo: “Sede pacientes, sede cristãos.”

Ser cristão, segundo o Espiritismo, é viver o Evangelho no dia a dia, com mansidão, paciência, perdão e confiança em Deus. Essa única palavra — cristãos — resume todo o esforço moral que somos chamados a realizar.

Que possamos, assim, transformar a dor em aprendizado, a paciência em caridade e a vida em um caminho consciente de evolução espiritual.

Que assim seja. 🌿