O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

CAPÍTULO V

BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS

Instruções dos Espíritos - Bem e mal sofrer

18. Quando o Cristo disse: “Bem-aventurados os aflitos, o Reino dos Céus lhes pertence”, não se referia de modo geral aos que sofrem, visto que sofrem todos os que se encontram na Terra, quer ocupem tronos, quer jazam sobre a palha. Mas, ah! poucos sofrem bem; poucos compreendem que somente as provas bem suportadas podem conduzi-los ao Reino de Deus. O desânimo é uma falta. Deus vos recusa consolações, desde que vos falte coragem. A prece é um apoio para a alma; contudo, não basta: é preciso tenha por base uma fé viva na bondade de Deus. Ele já muitas vezes vos disse que não coloca fardos pesados em ombros fracos. O fardo é proporcionado às forças, como a recompensa o será à resignação e à coragem. Mais opulenta será a recompensa, do que penosa a aflição. Cumpre, porém, merecê-la, e é para isso que a vida se apresenta cheia de tribulações.

O militar que não é mandado para as linhas de fogo fica descontente, porque o repouso no campo nenhuma ascensão de posto lhe faculta. Sede, pois, como o militar e não desejeis um repouso em que o vosso corpo se enervaria e se entorpeceria a vossa alma. Alegrai-vos quando Deus vos enviar para a luta. Não consiste esta no fogo da batalha, mas nos amargores da vida, em que, às vezes, de mais coragem se há mister do que num combate sangrento, porquanto não é raro que aquele que se mantém firme em presença do inimigo fraqueje nas tenazes de uma pena moral. Nenhuma recompensa obtém o homem por essa espécie de coragem; mas Deus lhe reserva palmas de vitória e uma situação gloriosa. Quando vos advenha uma causa de sofrimento ou de contrariedade, sobreponde-vos a ela, e, quando houverdes conseguido dominar os ímpetos da impaciência, da cólera, ou do desespero, dizei, de vós para convosco, cheio de justa satisfação: “Fui o mais forte.”

Bem-aventurados os aflitos pode então traduzir-se assim: Bem-aventurados os que têm ocasião de provar sua fé, sua firmeza, sua perseverança e sua submissão à vontade de Deus, porque terão centuplicada a alegria que lhes falta na Terra, porque depois do labor virá o repouso. (Lacordaire, Havre, 1863).

Comentário:

Meus irmãos, que a paz de Jesus nos envolva.

O trecho que estudamos hoje nos traz uma reflexão profunda sobre o sofrimento — não para exaltá-lo, mas para compreendê-lo. No item intitulado “Bem e Mal Sofrer”, o Espírito Lacordaire nos mostra que não basta passar pelas provas: é preciso saber enfrentá-las, porque é dessa atitude íntima que nasce o verdadeiro crescimento espiritual.

Lacordaire inicia lembrando que Jesus não disse “bem-aventurados todos os que sofrem”, porque isso abrangeria toda a humanidade. No mundo, todos sofrem: ricos, pobres, jovens, idosos. Mas nem todos sabem transformar o sofrimento em aprendizado. Todos sofrem — mas poucos sofrem bem.

Ele afirma que poucos sofrem bem, porque poucos entendem que: As provas não são castigos; São caminhos de progresso; E só levam ao Reino de Deus quando são bem suportadas.

O sofrimento em si não santifica ninguém. O que santifica é a maneira como o enfrentamos.

O texto é firme: O desânimo é uma falta. Não porque Deus nos condene por sentir dor, mas porque o desânimo nos paralisa e nos impede de utilizar a prova como instrumento de crescimento.

Ele também diz que Deus recusa consolações quando falta coragem. Isso não significa abandono divino, mas lembra que certas ajudas espirituais só nos alcançam quando abrimos a alma pela confiança, pela fé viva e operante.

A prece, diz o Espírito, é um apoio, mas sozinha não basta: é preciso acreditar na bondade de Deus e agir de acordo com essa confiança.

“Deus não coloca fardos pesados em ombros fracos”

Essa lição é uma das mais consoladoras do trecho. Se a prova é difícil, é porque a alma é capaz.

A força para suportá-la já existe dentro de nós, mesmo que ainda não tenhamos consciência disso.

Da mesma forma que a recompensa é proporcional à coragem, as provas são proporcionadas às forças. E Lacordaire garante: a recompensa será muito maior que o peso da aflição.

O Espírito usa uma comparação muito bonita: Um soldado não se realiza no repouso, pois sabe que é no combate que conquista mérito e ascensão. Assim também nós: Não devemos buscar uma vida de repouso absoluto; O comodismo enfraquece o corpo e entorpece a alma; As lutas da vida são o terreno onde exercitamos a paciência, a fé e a perseverança.

Ele destaca que muitas vezes é preciso mais coragem para suportar uma dor moral silenciosa do que para enfrentar um inimigo em batalha aberta. E para esse tipo de coragem, frequentemente sem aplausos, Deus reserva recompensas maiores. O Espírito nos aconselha: Quando vos advenha uma causa de sofrimento ou contrariedade, sobreponde-vos a ela.

E completa: Se você conseguir dominar a impaciência, a cólera, o desespero, diga consigo mesmo: “Fui o mais forte.”.

Não é orgulho — é reconhecimento do próprio progresso. Cada pequena vitória contra nossas tendências inferiores é um passo seguro no caminho da elevação.

No fim, Lacordaire reformula a frase de Jesus: Bem-aventurados os que têm ocasião de demonstrar sua fé, sua firmeza e sua submissão à vontade de Deus.

A bem-aventurança não está na dor, mas no crescimento que ela permite, na força que revela, na confiança que desenvolve. Porque depois do trabalho virá o repouso. O sofrimento é temporário; a conquista espiritual é eterna.

Conclusão: Este item nos convida a mudar nossa postura diante das dificuldades. O Espiritismo não glorifica a dor, mas nos ensina a dignificá-la, para que ela se transforme em luz, experiência e paz futura. Que possamos, diante das provas, lembrar: Não estou sozinho. Tenho força para suportar. Esta é minha oportunidade de crescer. E Deus, justo e bom, me acompanha hoje, amanhã e sempre.

Paz a todos!