O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

CAPÍTULO V

BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS

Instruções dos Espíritos – O mal e o remédio

19. Será a Terra um lugar de gozo, um paraíso de delícias? Já não ressoa mais aos vossos ouvidos a voz do profeta? Não proclamou Ele que haveria prantos e ranger de dentes para os que nascessem nesse vale de dores? Esperai, pois, todos vós que aí viveis, causticantes lágrimas e amargo sofrer e, por mais agudas e profundas sejam as vossas dores, volvei o olhar para o Céu e bendizei o Senhor por ter querido experimentar-vos... Ó homens! dar-se-á não reconheçais o poder do vosso Senhor, senão quando Ele vos

haja curado as chagas do corpo e coroado de beatitude e ventura os vossos dias? Dar-se-á não reconheçais o seu amor, senão quando vos tenha adornado o corpo de todas as glórias e lhe haja restituído o brilho e a brancura? Imitai aquele que vos foi dado para exemplo. Tendo chegado ao último grau da abjeção e da miséria, deitado sobre uma estrumeira, disse ele [Jó] a Deus: “Senhor, conheci todos os deleites da opulência e me reduzistes à mais absoluta miséria; obrigado, obrigado, meu Deus, por haverdes querido experimentar o vosso servo!” Até quando os vossos olhares se deterão nos horizontes que a morte limita? Quando, afinal, vossa alma se decidirá a lançar-se para além dos limites de um túmulo? Houvésseis de chorar e sofrer a vida inteira, que seria isso, a par da eterna glória reservada ao que tenha sofrido a prova com fé, amor e resignação? Buscai consolações para os vossos males no porvir que Deus vos prepara e procurai-lhe a causa no passado. E vós, que mais sofreis, considerai-vos os afortunados da Terra.

Como desencarnados, quando pairáveis no Espaço, escolhestes as vossas provas, julgando-vos bastante fortes para as suportar. Por que agora murmurar? Vós, que pedistes a riqueza e a glória, queríeis sustentar luta com a tentação e vencê-la. Vós, que pedistes para lutar de corpo e espírito contra o mal moral e físico, sabíeis que quanto mais forte fosse a prova, tanto mais gloriosa a vitória e que, se triunfásseis, embora devesse o vosso corpo parar numa estrumeira, dele, ao morrer, se desprenderia uma alma de rutilante alvura e purificada pelo batismo da expiação e do sofrimento.

Que remédio, então, prescrever aos atacados de obsessões cruéis e de cruciantes males? Só um é infalível: a fé, o apelo ao Céu. Se, na maior acerbidade dos vossos sofrimentos, entoardes hinos ao Senhor, o anjo, à vossa cabeceira, com a mão vos apontará o sinal da salvação e o lugar que um dia ocupareis... A fé é o remédio seguro do sofrimento; mostra sempre os horizontes do infinito diante dos quais se esvaem os poucos dias brumosos do presente. Não nos pergunteis, portanto, qual o remédio para curar tal úlcera ou tal chaga, para tal tentação ou tal prova. Lembrai-vos de que aquele que crê é forte pelo remédio da fé e que aquele que duvida um instante da sua eficácia é imediatamente punido, porque logo sente as pungitivas angústias da aflição.

O Senhor apôs o seu selo em todos os que nele creem. O Cristo vos disse que com a fé se transportam montanhas e eu vos digo que aquele que sofre e tem a fé por amparo ficará sob a sua égide e não mais sofrerá. Os momentos das mais fortes dores lhe serão as primeiras notas alegres da eternidade. Sua alma se desprenderá de tal maneira do corpo que, enquanto ele se estorcer em convulsões, ela planará nas regiões celestes, entoando, com os anjos, hinos de reconhecimento e de glória ao Senhor. Ditosos os que sofrem e choram! Alegres estejam suas almas, porque Deus as cumulará de bem-aventuranças. (Santo Agostinho, Paris, 1863).

Comentário:

Queridos irmãos e irmãs, o trecho que estudamos hoje, extraído do capítulo V do Evangelho Segundo o Espiritismo, nos convida a olhar a dor sob uma perspectiva espiritual mais profunda. Santo Agostinho nos recorda que a Terra não é um lugar de prazeres, mas um espaço educativo, um “vale de lágrimas” destinado ao crescimento do espírito. Assim, não devemos esperar da vida terrena um paraíso, pois ela foi construída como uma escola, e nas escolas aprendemos, corrigimos e muitas vezes enfrentamos desafios para evoluir.

Todos nós, sem exceção, passamos por dificuldades. Mas o Evangelho nos mostra que não é o sofrimento em si que eleva, e sim a forma como o enfrentamos. As provas são instrumentos de progresso, e Deus, em sua sabedoria, não coloca sobre nós um fardo maior que nossas forças. Ele conhece cada criatura e ajusta a experiência à necessidade do espírito. Por isso, diante das dores mais profundas, somos convidados a erguer os olhos para o Céu e reconhecer no desafio uma oportunidade de crescimento.

O Espírito nos lembra do exemplo de Jó, que, mesmo mergulhado na miséria após ter desfrutado da opulência, agradeceu a Deus pela prova. Ele compreendeu que aquela experiência era uma forma de fortalecer a própria fé. E aqui surge a pergunta essencial: Até quando enxergaremos apenas o limite da vida material? Quando nos decidiremos a olhar além do túmulo, percebendo que somos espíritos eternos?

As dores da vida podem durar anos, mas, comparadas à eternidade, são apenas momentos breves. O sofrimento aceito com fé, amor e resignação torna-se fonte de luz e de glória futura. É por isso que o Espírito afirma, de forma tão profunda, que aqueles que mais sofrem podem ser considerados os mais afortunados espiritualmente, pois estão recebendo chances valiosas de depuração e vitória moral.

Somos lembrados também de uma verdade importante: antes de reencarnar, fomos nós mesmos que escolhemos nossas provas. No mundo espiritual, confiantes e amparados, pedimos desafios que acreditávamos poder superar. Sabíamos que cada dificuldade vencida nos elevaria, que cada tentação dominada nos purificaria. Agora, estando encarnados, não devemos murmurar ou nos revoltar. Devemos lembrar que as batalhas que enfrentamos são exatamente aquelas que nossa alma necessita.

Diante disso, Santo Agostinho nos apresenta o grande remédio para o sofrimento: a fé. Não uma fé cega ou passiva, mas uma fé ativa, que ilumina a alma, que sustenta nas horas mais duras, que abre janelas de esperança quando tudo parece escuro. A fé não elimina a prova, mas transforma nossa relação com ela. Aquele que crê torna-se forte. Aquele que duvida sente imediatamente o peso da dor, porque perde o apoio divino que o amparo interior proporciona.

O Cristo nos disse que a fé pode mover montanhas. E o Espírito acrescenta: ela move também as montanhas internas — as da revolta, do medo, da desesperança. Quem sofre com fé está, desde já, sob a proteção divina. Seu espírito se eleva de tal maneira que, mesmo quando o corpo sofre, sua alma pode estar em paz, em harmonia, em ligação com as regiões superiores.

Assim, meus irmãos, concluímos esta reflexão com a frase que sintetiza todo o ensinamento: “Ditosos os que sofrem e choram, porque Deus os cumulará de bem-aventuranças.”

Que possamos transformar nossas dores em aprendizado, nossas lágrimas em sementes de luz e nossa fé em caminho seguro rumo à paz que o Cristo nos prometeu.

Que Jesus nos abençoe hoje e sempre.