O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

CAPÍTULO V

BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS

Instruções dos Espíritos – Provas voluntárias. O verdadeiro cilício

26. Perguntais se é lícito ao homem abrandar suas próprias provas. Essa questão equivale a esta outra: É lícito, àquele que se afoga, cuidar de salvar-se? Àquele em quem um espinho entrou, retirá-lo? Ao que está doente, chamar o médico? As provas têm por fim exercitar a inteligência, tanto quanto a paciência e a resignação. Pode dar-se que um homem nasça em posição penosa e difícil, precisamente para se ver obrigado a procurar meios de vencer as dificuldades. O mérito consiste em sofrer, sem murmurar, as consequências dos males que lhe não seja possível evitar, em perseverar na luta, em se não desesperar, se não é bem-sucedido; nunca, porém, numa negligência que seria mais preguiça do que virtude.

Essa questão dá lugar naturalmente a outra. Pois, se Jesus disse: “Bem-aventurados os aflitos”, haverá mérito em procurar, alguém, aflições que lhe agravem as provas, por meio de sofrimentos voluntários? A isso responderei muito positivamente: sim, há grande mérito quando os sofrimentos e as privações objetivam o bem do próximo, porquanto é a caridade pelo sacrifício; não, quando os sofrimentos e as privações somente objetivam o bem daquele que a si mesmo as inflige, porque aí só há egoísmo por fanatismo.

Grande distinção cumpre aqui se faça: pelo que vos respeita pessoalmente, contentai-vos com as provas que Deus vos manda e não lhes aumenteis o volume, já de si por vezes tão pesado; aceitá-las sem queixumes e com fé, eis tudo o que de vós exige Ele. Não enfraqueçais o vosso corpo com privações inúteis e macerações sem objetivo, pois que necessitais de todas as vossas forças para cumprirdes a vossa missão de trabalhar na Terra. Torturar e martirizar voluntariamente o vosso corpo é contravir a Lei de Deus, que vos dá meios de o sustentar e fortalecer. Enfraquecê-lo sem necessidade é um verdadeiro suicídio. Usai, mas não abuseis, tal a lei. O abuso das melhores coisas tem a sua punição nas inevitáveis consequências que acarreta.

Muito diverso é o que ocorre, quando o homem impõe a si próprio sofrimentos para o alívio do seu próximo. Se suportardes o frio e a fome para aquecer e alimentar alguém que precise ser aquecido e alimentado e se o vosso corpo disso se ressente, fazeis um sacrifício que Deus abençoa. Vós que deixais os vossos aposentos perfumados para irdes à mansarda infecta levar a consolação; vós que sujais as mãos delicadas pensando chagas; vós que vos privais do sono para velar à cabeceira de um doente que apenas é vosso irmão em Deus; vós, enfim, que despendeis a vossa saúde na prática das boas obras, tendes em tudo isso o vosso cilício, verdadeiro e abençoado cilício, visto que os gozos do mundo não vos secaram o coração, que não adormecestes no seio das volúpias enervantes da riqueza, antes vos constituístes anjos consoladores dos pobres deserdados.

Vós, porém, que vos retirais do mundo, para lhe evitar as seduções e viver no insulamento, que utilidade tendes na Terra? Onde a vossa coragem nas provações, uma vez que fugis à luta e desertais do combate? Se quereis um cilício, aplicai-o às vossas almas, e não aos vossos corpos; mortificai o vosso Espírito, e não a vossa carne; fustigai o vosso orgulho, recebei sem murmurar as humilhações; flagiciai o vosso amor-próprio; enrijai-vos contra a dor da injúria e da calúnia, mais pungente do que a dor física. Aí tendes o verdadeiro cilício cujas feridas vos serão contadas, porque atestarão a vossa coragem e a vossa submissão à vontade de Deus.

(Um anjo guardião, Paris, 1863).

Dever-se-á pôr termo às provas do próximo?

27. Deve alguém pôr termo às provas do seu próximo quando o possa, ou deve, para respeitar os desígnios de Deus, deixar que sigam seu curso?

Já vos temos dito e repetido muitíssimas vezes que estais nessa Terra de expiação para concluirdes as vossas provas e que tudo que vos sucede é consequência das vossas existências anteriores, são os juros da dívida que tendes de pagar. Esse pensamento, porém, provoca em certas pessoas reflexões que devem ser combatidas, devido aos funestos efeitos que poderiam determinar.

Pensam alguns que, estando-se na Terra para expiar, cumpre que as provas sigam seu curso. Outros há, mesmo, que vão até o ponto de julgar que, não só nada devem fazer para as atenuar, mas que, ao contrário, devem contribuir para que elas sejam mais proveitosas, tornando-as mais vivas. Grande erro. É certo que as vossas provas têm de seguir o curso que lhes traçou Deus; dar-se-á, porém, conheçais esse curso? Sabeis até onde têm elas de ir e se o vosso Pai misericordioso não terá dito ao sofrimento de tal ou tal dos vossos irmãos: “Não irás mais longe?” Sabeis se a Providência não vos escolheu, não como instrumento de suplício para agravar os sofrimentos do culpado, mas como o bálsamo da consolação para fazer cicatrizar as chagas que a sua justiça abrira? Não digais, pois, quando virdes atingido um dos vossos irmãos: “É a Justiça de Deus, importa que siga o seu curso.” Dizei antes: “Vejamos que meios o Pai misericordioso me pôs ao alcance para suavizar o sofrimento do meu irmão. Vejamos se as minhas consolações morais, o meu amparo material ou meus conselhos poderão ajudá-lo a vencer essa prova com mais energia, paciência e resignação. Vejamos mesmo se Deus não me pôs nas mãos os meios de fazer que cesse esse sofrimento; se não deu a mim, também como prova, como expiação talvez, deter o mal e substituí-lo pela paz.”

Ajudai-vos, pois, sempre, mutuamente, nas vossas respectivas provações e nunca vos considereis instrumentos de tortura. Contra essa ideia deve revoltar-se todo homem de coração, principalmente todo espírita, porquanto este, melhor do que qualquer outro, deve compreender a extensão infinita da bondade de Deus. Deve o espírita estar compenetrado de que a sua vida toda tem de ser um ato de amor e de devotamento; que, faça ele o que fizer para se opor às decisões do Senhor, estas se cumprirão. Pode, portanto, sem receio, empregar todos os esforços por atenuar o amargor da expiação, certo, porém, de que só a Deus cabe detê-la ou prolongá-la, conforme julgar conveniente.

Não haveria imenso orgulho, da parte do homem, em se considerar no direito de, por assim dizer, revirar a arma dentro da ferida? De aumentar a dose do veneno nas vísceras daquele que está sofrendo, sob o pretexto de que tal é a sua expiação? Oh! considerai-vos sempre como instrumento para fazê-la cessar. Resumindo: todos estais na Terra para expiar; mas todos, sem exceção, deveis esforçar-vos por abrandar a expiação dos vossos semelhantes, de acordo com a lei de amor e caridade.

(Bernardino, Espírito protetor, Bordeaux, 1863).

Será lícito abreviar a vida de um doente que sofra sem esperança de cura?

28. Um homem está agonizante, presa de cruéis sofrimentos. Sabe-se que seu estado é desesperador. Será lícito pouparem-se lhe alguns instantes de angústias, apressando-se lhe o fim?

Quem vos daria o direito de prejulgar os desígnios de Deus? Não pode Ele conduzir o homem até a borda do fosso, para daí o retirar, a fim de fazê-lo voltar a si e alimentar ideias diversas das que tinha? Ainda que haja chegado ao último extremo um moribundo, ninguém pode afirmar com segurança que lhe haja soado a hora derradeira. A Ciência não se terá enganado nunca em suas previsões?

Sei bem haver casos que se podem, com razão, considerar desesperadores; mas, se não há nenhuma esperança fundada de um regresso definitivo à vida e à saúde, existe a possibilidade, atestada por inúmeros exemplos, de o doente, no momento mesmo de exalar o último suspiro, reanimar-se e recobrar por alguns instantes as faculdades! Pois bem: essa hora de graça, que lhe é concedida, pode ser-lhe de grande importância. Desconheceis as reflexões que seu Espírito poderá fazer nas convulsões da agonia e quantos tormentos lhe pode poupar um relâmpago de arrependimento.

O materialista, que apenas vê o corpo e em nenhuma conta tem a alma, é inapto a compreender essas coisas; o espírita, porém, que já sabe o que se passa no além-túmulo, conhece o valor de um último pensamento. Minorai os derradeiros sofrimentos, quanto o puderdes; mas guardai-vos de abreviar a vida, ainda que de um minuto, porque esse minuto pode evitar muitas lágrimas no futuro. (São Luís, Paris, 1860).

Sacrifício da própria vida

29. Aquele que se acha desgostoso da vida, mas que não quer extingui-la por suas próprias mãos, será culpado se procurar a morte num campo de batalha, com o propósito de tornar útil sua morte?

Que o homem se mate ele próprio, ou faça que outrem o mate, seu propósito é sempre cortar o fio da existência: há, por conseguinte, suicídio intencional, se não de fato. É ilusória a ideia de que sua morte servirá para alguma coisa; isso não passa de pretexto para colorir o ato e escusá-lo aos seus próprios olhos. Se ele desejasse seriamente servir ao seu país, cuidaria de viver para defendê-lo; não procuraria morrer, pois que, morto, de nada mais lhe serviria. O verdadeiro devotamento consiste em não temer a morte, quando se trate de ser útil, em afrontar o perigo, em fazer, de antemão e sem pesar, o sacrifício da vida, se for necessário; mas buscar a morte com premeditada intenção, expondo-se a um perigo, ainda que para prestar serviço, anula o mérito da ação. (São Luís, Paris, 1860).

30. Se um homem se expõe a um perigo iminente para salvar a vida a um de seus semelhantes, sabendo de antemão que sucumbirá, pode o seu ato ser considerado suicídio?

Desde que no ato não entre a intenção de buscar a morte, não há suicídio, e sim, apenas, devotamento e abnegação, embora também haja a certeza de que morrerá. Mas quem pode ter essa certeza? Quem poderá dizer que a Providência não reserva um inesperado meio de salvação para o momento mais crítico? Não poderia ela salvar mesmo aquele que se achasse diante da boca de um canhão? Pode muitas vezes dar-se que ela queira levar ao extremo limite a prova da resignação e, nesse caso, uma circunstância inopinada desvia o golpe fatal. (São Luís, Paris, 1860).

Proveito dos sofrimentos para outrem

31. Os que aceitam resignados os sofrimentos, por submissão à vontade de Deus e tendo em vista a felicidade futura, não trabalham somente em seu próprio benefício? Poderão tornar seus sofrimentos proveitosos a outrem?

Podem esses sofrimentos ser de proveito para outrem, material e moralmente: materialmente se, pelo trabalho, pelas privações e pelos sacrifícios que tais criaturas se imponham, contribuem para o bem-estar material de seus semelhantes; moralmente, pelo exemplo que elas oferecem de sua submissão à vontade de Deus. Esse exemplo do poder da fé espírita pode induzir os desgraçados à resignação e salvá-los do desespero e de suas consequências funestas para o futuro.

(São Luís, Paris, 1860).

Comentário:

Meus irmãos e minhas irmãs, o capítulo que veremos hoje nos convida a uma reflexão profunda sobre o sentido das provas na vida humana e sobre a maneira como lidamos com o sofrimento.

Muitas vezes nos perguntamos: “É permitido abrandar as minhas provas? Posso tentar diminuir minhas dificuldades ou devo aceitá-las passivamente?”

O Espírito que nos instrui responde com muita clareza: Sim, é permitido — e é até natural — buscar alívio para as dificuldades. E para explicar, ele nos oferece três imagens simples: — Se alguém está se afogando, não deve tentar salvar-se? — Se um espinho entra no dedo, não devemos retirá-lo? — Se estamos doentes, não devemos chamar o médico?

As provas, nos diz ele, existem para exercitar nossa inteligência, nossa coragem e nossa paciência. Mas isso não significa que devamos sofrer mais do que o necessário. O mérito espiritual não está em buscar sofrimento por sofrimento; está em aceitar com serenidade aquilo que não podemos evitar, sem queixas, sem revolta — mas sempre com a lucidez de lutar contra o que pode ser superado.

Sofrimentos voluntários: quando são válidos e quando são ilusórios

A partir dessa questão surge outra ainda mais delicada: Haverá mérito em buscar voluntariamente o sofrimento, como alguns faziam — e ainda fazem — acreditando que isso agrada a Deus?

A resposta é equilibrada e sábia:

— Há mérito quando o sofrimento voluntário tem como objetivo aliviar o sofrimento do outro.

— Não há mérito quando o sofrimento é imposto sobre si mesmo apenas para “evoluir” ou “pagar dívidas”. Nesse caso, diz o Espírito, trata-se de egoísmo por fanatismo.

Torturar o corpo, enfraquecer a saúde, recusar alimento ou conforto sem necessidade clara e útil não traz progresso espiritual. Chega a ser, segundo ele, um suicídio lento, porque fere o corpo — instrumento que Deus nos empresta para cumprirmos nossa missão na Terra.

O verdadeiro sacrifício, o verdadeiro “cilício”, não é aquele que machuca a carne, mas o que fortalece o espírito. O Espírito nos diz com muita beleza: “Se quiserdes um cilício, aplicai-o às vossas almas, e não aos vossos corpos.” E explica como fazer isso:

— Mortificar o orgulho.

— Receber humilhações sem revolta.

— Domar o amor-próprio ferido.

— Suportar injúrias e calúnias com dignidade.

— Lutar contra o egoísmo e a vaidade.

Essas são as dores mais profundas, e é nelas que demonstramos nossa verdadeira coragem espiritual. É muito mais nobre suportar uma calúnia com serenidade do que dormir sobre espinhos. É mais elevado vencer o próprio orgulho do que jejuar até adoecer. É mais difícil renunciar à vaidade do que impor ao corpo torturas desnecessárias. E quando os sacrifícios são para o bem do outro — quando deixamos o conforto para amparar alguém, quando renunciamos ao nosso tempo ou recursos para ajudar o próximo — esses são os sacrifícios que Deus abençoa, porque são feitos com amor, e não por vaidade espiritual.

Devemos interferir nas provas do próximo?

Outro ponto importante é a tentação de acreditar que, já que cada um está na Terra para expiar, devemos “deixar que a vida puna” o outro ou até assumir postura rígida, dizendo: “É carma dele”. Essa visão é perigosa. Primeiro, porque não conhecemos os desígnios de Deus. Segundo, porque nunca somos enviados como instrumentos de tortura, mas como instrumentos de alívio. Quando encontramos alguém sofrendo, a pergunta não deve ser: “Será que devo deixar a prova seguir seu curso?” Mas sim: “Como posso ser bálsamo, como posso ajudar, como posso aliviar?”

A Lei de Deus é uma lei de amor, e toda oportunidade de consolar e amparar é também uma prova para nós. E se o sofrimento do outro deve continuar, Deus assim decidirá — não nós. Aliviar a dor do próximo nunca atrapalha sua evolução. Ao contrário: é ato de caridade que beneficia quem recebe e também quem oferece.

É permitido abreviar a vida de um doente sem esperança?

Nesse trecho, o Espírito é firme: não é permitido abreviar a vida de ninguém, mesmo que a intenção seja “aliviar o sofrimento”. A razão é profunda:

— Não sabemos quando termina a prova de alguém.

— Não sabemos o que Deus reserva para os últimos instantes.

— Não sabemos se aquele minuto final será o momento de arrependimento ou de reconciliação consigo mesmo e com a vida.

Por isso, somos convidados a aliviar a dor com todos os recursos possíveis — carinho, remédios, conforto, presença — mas jamais abreviar a existência.

Sacrifício da própria vida: quando é suicídio e quando é devotamento?

Se alguém busca a morte para fugir da vida, ainda que usando um pretexto nobre, isso é suicídio em intenção. Por exemplo: procurar um campo de batalha apenas para morrer e dar fim ao próprio sofrimento. Por outro lado, quando alguém arrisca a vida para salvar outra vida — e não busca a morte, mas assume o risco — aí não há suicídio, mas abnegação verdadeira. O mérito está na intenção, não no desfecho.

O proveito dos sofrimentos para o próximo

Por fim, somos lembrados de que quem suporta as provas com fé e resignação não beneficia apenas a si mesmo. Seu exemplo de coragem moral inspira outros. Sua paciência fortalece quem o observa. Sua fé dá ânimo aos que já estão à beira da queda. O sofrimento aceito com serenidade ilumina caminhos.

Conclusão

Meus irmãos, o estudo de hoje nos mostra que: Sofrimento voluntário só tem valor quando visa ajudar alguém. O verdadeiro sacrifício é moral, não corporal. Devemos aliviar as provas do próximo, sempre que possível. Jamais temos o direito de abreviar a vida de alguém — nem a nossa, nem a de outrem.

O exemplo da resignação é fonte de consolo para muitos.

Que possamos, então, encontrar na dor não uma sentença, mas uma oportunidade. Que possamos usar nossas forças para consolar, amparar, estender a mão e caminhar juntos. E que nossas provas — grandes ou pequenas — sejam vividas com coragem, dignidade e fé, lembrando sempre que ninguém sofre sozinho, que ninguém sofre em vão, e que todo sofrimento tem um fim, quando vivido com amor e confiança em Deus.

Muita paz e luz a todos!