O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

CAPÍTULO V

BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS

Causas atuais das aflições

4. De duas espécies são as vicissitudes da vida, ou, se o preferirem, promanam de duas fontes bem diferentes, que importa distinguir. Umas têm sua causa na vida presente; outras, fora desta vida. Remontando-se à origem dos males terrestres, reconhecer-se-á que muitos são consequência natural do caráter e do proceder dos que os suportam. Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição! Quantos se arruínam por falta de ordem, de perseverança, pelo mau proceder, ou por não terem sabido limitar seus desejos! Quantas uniões desgraçadas, porque resultaram de um cálculo de interesse ou de vaidade e nas quais o coração não tomou parte alguma! Quantas dissensões e funestas disputas se teriam evitado com um pouco de moderação e menos suscetibilidade! Quantas doenças e enfermidades decorrem da intemperança e dos excessos de todo gênero! Quantos pais são infelizes com seus filhos, porque não lhes combateram desde o princípio as más tendências! Por fraqueza, ou indiferença, deixaram que neles se desenvolvessem os germens do orgulho, do egoísmo e da tola vaidade, que produzem a secura do coração; depois, mais tarde, quando colhem o que semearam, admiram-se e se afligem da falta de deferência com que são tratados e da ingratidão deles.

Interroguem friamente suas consciências todos os que são feridos no coração pelas vicissitudes e decepções da vida; remontem passo a passo à origem dos males que os torturam e verifiquem se, as mais das vezes, não poderão dizer: Se eu houvesse feito, ou deixado de fazer tal coisa, não estaria em semelhante condição.

A quem, então, há de o homem responsabilizar por todas essas aflições, senão a si mesmo? O homem, pois, em grande número de casos, é o causador de seus próprios infortúnios; mas, em vez de reconhecê-lo, acha mais simples, menos humilhante para a sua vaidade acusar a sorte, a Providência, a má fortuna, a má estrela, ao passo que a má estrela é apenas a sua incúria. Os males dessa natureza fornecem, indubitavelmente, um notável contingente ao cômputo das vicissitudes da vida. O homem as evitará quando trabalhar por se melhorar moralmente, tanto quanto intelectualmente.

5. A lei humana atinge certas faltas e as pune. Pode, então, o condenado reconhecer que sofre a consequência do que fez. Mas a lei não atinge, nem pode atingir todas as faltas; incide especialmente sobre as que trazem prejuízo à sociedade e não sobre as que só prejudicam os que as cometem. Deus, porém, quer que todas as suas criaturas progridam e, portanto, não deixa impune qualquer desvio do caminho reto. Não há falta alguma, por mais leve que seja, nenhuma infração da sua lei, que não acarrete forçosas e inevitáveis consequências, mais ou menos deploráveis. Daí se segue que, nas pequenas coisas, como nas grandes, o homem é sempre punido por aquilo em que pecou. Os sofrimentos que decorrem do pecado são-lhe uma advertência de que procedeu mal. Dão-lhe experiência, fazem-lhe sentir a diferença existente entre o bem e o mal e a necessidade de se melhorar para, de futuro, evitar o que lhe originou uma fonte de amarguras; sem o que, motivo não haveria para que se emendasse. Confiante na impunidade, retardaria seu avanço e, consequentemente, a sua felicidade futura. Entretanto, a experiência, algumas vezes, chega um pouco tarde: quando a vida já foi desperdiçada e turbada; quando as forças já estão gastas e sem remédio o mal. Põe-se então o homem a dizer: “Se no começo dos meus dias eu soubera o que sei hoje, quantos passos em falso teria evitado! Se houvesse de recomeçar, conduzir-me-ia de outra maneira. No entanto, já não há mais tempo!” Como o obreiro preguiçoso, que diz: “Perdi o meu dia”, também ele diz: “Perdi a minha vida.” Contudo, assim como para o obreiro o sol se levanta no dia seguinte, permitindo-lhe neste reparar o tempo perdido, também para o homem, após a noite do túmulo, brilhará o sol de uma nova vida, em que lhe será possível aproveitar a experiência do passado e suas boas resoluções para o futuro.

Comentário:

Meus irmãos, hoje vamos refletir sobre um tema profundamente consolador e esclarecedor trazido pelo Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo V: Bem-aventurados os aflitos, especialmente o trecho sobre as Causas atuais das aflições.

O Espiritismo nos convida a olhar para as dificuldades da vida não como castigos, mas como consequências naturais de nossas escolhas e como oportunidades de crescimento espiritual. O texto nos ensina que as vicissitudes — ou seja, as dificuldades e provações — podem nascer de duas origens distintas: umas têm causa na vida presente, e outras têm causa fora desta vida, ou seja, em experiências anteriores do Espírito.

Hoje vamos focar naquelas que têm origem na própria existência atual, pois Allan Kardec nos mostra que grande parte dos sofrimentos poderia ser evitada se agíssemos com mais prudência, responsabilidade e amor.

O Evangelho nos alerta: muitos dos nossos sofrimentos são resultado direto do nosso caráter e das nossas ações. Quantas vezes vemos pessoas caírem por causa da imprudência, do orgulho ou da ambição? Quantas vezes nos arruinamos por falta de organização, falta de disciplina, ou por não controlarmos nossos desejos e impulsos? Quantas desavenças surgem porque faltou apenas um pouco de moderação, ou porque fomos sensíveis demais ao ponto de transformar pequenas situações em grandes conflitos?

O texto também aborda situações familiares. Muitos pais sofrem com a falta de respeito ou ingratidão dos filhos, mas o Evangelho nos convida a uma reflexão honesta: será que essas sementes não foram plantadas lá atrás, quando, por fraqueza ou descuido, deixamos que orgulho, egoísmo e vaidade se instalassem nos corações ainda jovens? Não como culpa, mas como alerta amoroso para que eduquemos com firmeza, carinho e valores.

O convite é para que cada um de nós examine a própria consciência. Se formos sinceros, veremos que muitas das dores que enfrentamos poderiam ser evitadas se tivéssemos tomado decisões mais sábias. Quantas vezes poderíamos dizer: “Se eu tivesse agido diferente… hoje não estaria passando por isso.”

E o que fazemos então? Costumamos culpar a sorte, a Providência, ou até inventar expressões como “má estrela”, quando na verdade, como diz o texto, essa “má estrela” não passa de nossas próprias escolhas desequilibradas.

Isso não é uma acusação. É um chamado à responsabilidade e ao autoconhecimento. Se eu sou o responsável por parte dos meus sofrimentos, então também sou responsável por criar caminhos de paz e melhoria. O Evangelho afirma: o homem evitará muitos males quando trabalhar por melhorar-se moral e intelectualmente. Ou seja, a mudança que queremos começa dentro de nós.

Kardec também explica que, embora a lei humana consiga punir alguns erros, ela nunca alcançará todos. Mas a Lei Divina, que é perfeita e justa, permite que toda ação tenha sua consequência, não por castigo, mas por educação do Espírito. Cada sofrimento que nasce de um erro é uma mensagem de Deus, mostrando que seguimos por um caminho equivocado e que precisamos ajustar nossa rota.

E embora às vezes a lição chegue tarde — quando já sentimos que desperdiçamos oportunidades — o Evangelho nos consola com uma esperança maravilhosa: assim como o sol nasce novamente para o trabalhador que perdeu o dia, renasce também para o Espírito o sol de uma nova existência. Nada está perdido. Cada aprendizado é guardado. A vida prossegue, oferecendo novas chances para que a experiência conquistada não seja em vão. Portanto, meus irmãos, quando enfrentarmos aflições, lembremos: — algumas, são necessários caminhos de provas e expiações; — outras, fruto das escolhas que fizemos agora; — mas todas, sem exceção, são oportunidades divinas para que possamos crescer, reajustar e evoluir.

Que possamos, então, olhar para nossas dores não com revolta, mas com serenidade; não com desespero, mas com responsabilidade; e principalmente, com a certeza de que Deus nunca nos abandona e de que cada esforço rumo ao bem nos aproxima da verdadeira felicidade.

Que Jesus, o Divino Consolador, nos fortaleça e nos inspire na jornada de autoconhecimento e renovação.

Que assim seja...

Muita paz a todos. 🌟