O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

CAPÍTULO VI

O CRISTO CONSOLADOR

O ADVENTO DO ESPÍRITO DA VERDADE

Espírito de Verdade, Paris, 1860

5. Venho, como outrora, entre os filhos desgarrados de Israel, trazer a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me. O Espiritismo, como outrora a minha palavra, deve lembrar os incrédulos que acima deles reina a verdade imutável: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinar as plantas e que levanta as ondas. Eu revelei a doutrina divina; e, como um segador, liguei em feixes o bem esparso pela humanidade, e disse: "Vinde a mim, todos vós que sofreis!"

Mas os homens ingratos se desviaram da estrada larga e reta que conduz ao Reino de meu Pai, perdendo-se nas ásperas veredas da impiedade. Meu Pai não quer aniquilar a raça humana. Ele quer que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, ou seja, mortos segundo a carne, porque a morte não existe, sejais socorridos, e que, não mais a voz dos profetas e dos apóstolos, mas a voz dos que se foram, faça-se ouvir para vos gritar: Crede e orai! Porque a morte é a ressurreição, e a vida é a prova escolhida, durante a qual vossas virtudes cultivadas devem crescer e desenvolver-se como o cedro.

Homens fracos, que vos limitais às trevas de vossa inteligência, não afasteis a tocha que a clemência divina vos coloca nas mãos, para iluminar vossa rota e vos reconduzir, crianças perdidas, ao regaço de vosso Pai.

Estou demasiado tocado de compaixão pelas vossas misérias, por vossa imensa fraqueza, para não estender a mão em socorro aos infelizes extraviados que, vendo o céu, caem nos abismos do erro. Ide, amai, meditai todas as coisas que vos são reveladas; não mistureis o joio ao bom grão, as utopias com as verdades.

Espíritas: amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis segundo. Todas as verdades se encontram no Cristianismo; os erros que nele se enraizaram são de origem humana; e eis que, de além-túmulo, que acreditáveis vazio, vozes vos clamam: Irmãos! Nada perece. Jesus Cristo é o vencedor do mal; sede os vencedores impiedade!

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Espírito da Verdade, Paris, 1861

6. Venho ensinar e consolar os pobres deserdados. Venho dizer-lhes que elevem sua resignação ao nível de suas provas; que chorem, porque a dor estava presente no Jardim das Oliveiras, mas que esperem, porque os anjos consoladores virão enxugar as suas lágrimas.

Trabalhadores, traçai o vosso sulco. Recomeçai no dia seguinte a rude jornada da véspera. O trabalho de vossas mãos fornece o pão terreno aos vossos corpos, mas vossas almas não estão esquecidas; eu, o divino jardineiro, as cultivo no silêncio dos vossos pensamentos. Quando soar a hora do repouso, quando a trama escapar de vossas mãos, e vossos olhos se fecharem para a luz, sentireis surgir e germinarem vós a minha preciosa semente. Nada se perde no Reino de nosso Pai. Vossos suores e vossas misérias formam um tesouro, que vos tornará ricos nas esferas superiores, onde a luz substitui as trevas, e onde o mais desnudo entre vós será talvez o mais resplandecente.

Em verdade vos digo: os que carregam seus fardos e assistem os seus irmãos são os meus bem-amados. Instrui-vos na preciosa doutrina que dissipa o erro das revoltas e vos ensina o objetivo sublime da prova humana. Como o vento varre a poeira, que o sopre dos Espíritos dissipe a vossa inveja dos ricos do mundo, que são frequentemente os mais miseráveis, porque suas provas são mais perigosas que as vossas. Estou convosco, e meu apóstolo vos ensina. Bebei na fonte viva do amor, e preparai-vos, cativos da vida, para vos lançardes um dia, livres e alegres, no seio d'Aquele que vos criou fracos para vos tornar perfeitos, e deseja que modeleis vós mesmo; a vossa dócil argila, para serdes os artífices da vossa imortalidade.

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Espírito da Verdade, Bourdeaux, 1861

7. Eu sou o grande médico das almas, e venho trazer-vos remédio que vos deve curar. Os débeis, os sofredores e os enfermo são os meus filhos prediletos, e venho salvá-los. Vinde, pois, a mim, todos vós que sofreis e que estais carregados, e sereis aliviados consolados. Não procureis alhures a força e a consolação, porque o mundo é impotente para dá-las. Deus dirige aos vossos corações um apelo supremo, através do Espiritismo: escutai-o. Que a impiedade a mentira, o erro, a incredulidade, sejam extirpados de vossas almas doloridas. São esses os monstros que sugam o mais puro do vosso sangue, e vos produzem chagas quase sempre mortais. Que no fundo, humildes e submissos ao Criador, pratiqueis sua divina lei. Amai e orai. Sede dóceis aos Espíritos do Senhor. Invocai-O do fundo do coração. Então, Ele vos enviará o seu Filho bem-amado, para vos instruir e vos dizer estas boas palavras: Eis-me aqui; venho a vós, porque me chamastes!

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Espírito da Verdade, Havre, 1861

8. Deus consola os humildes e dá força aos aflitos que a suplicam. Seu poder cobre a Terra, e por toda parte, ao lado de cada lágrima, põe o bálsamo que consola. O devotamento e a abnegação são uma prece contínua e encerram profundo ensinamento: a sabedoria humana reside nessas duas palavras. Possam todos os Espíritos sofredores compreender esta verdade, em vez de reclamar contra as dores, os sofrimentos morais, que são aqui na Terra o vosso quinhão. Tomai, pois, por divisa, essas duas palavras: devotamento e abnegação, e sereis fortes, porque eles resumem todos os deveres que a caridade e a humildade vos impõem. O sentimento do dever cumprido vos dará a tranquilidade de espírito e a resignação. O coração bate melhor, a alma se acalma, e o corpo já não sente desfalecimentos, porque o corpo sofre tanto mais, quanto mais profundamente abalado estiver o espírito.

Comentário:

Queridos irmãos e irmãs, que a paz do Cristo esteja em nossos corações.

Hoje estudaremos algumas das páginas mais sublimes de O Evangelho Segundo o Espiritismo: a mensagem intitulada “O Advento do Espírito da Verdade”, ditadas pelo próprio Espírito da Verdade e reunida por Allan Kardec no Capítulo VI.

Essas comunicações representam a continuidade da promessa de Jesus quando disse: “Eu rogarei ao Pai e Ele vos enviará outro Consolador, o Espírito da Verdade.”

Esse Consolador, conforme nos revela a Doutrina Espírita, é o conjunto de ensinamentos que nos recordam, explicam e desdobram o Evangelho, oferecendo consolação,

luz e compreensão às almas sinceras.

1. O Espírito da Verdade: A Voz que Dissipa as Trevas

No primeiro trecho, datado de Paris, 1860, o Espírito da Verdade afirma: “Venho, como outrora, entre os filhos desgarrados de Israel, trazer a verdade e dissipar as trevas.”

Essa frase nos remete diretamente ao Cristo. Aquele que veio há dois mil anos iluminando mentes e corações, retorna agora em Espírito, não através de uma presença física,

mas por meio de uma nova revelação, destinada a esclarecer e consolar.

O Espírito da Verdade nos lembra que: cima de tudo está Deus, eterno e imutável; Seu amor governa todas as coisas; E sua lei é o caminho seguro para nossa felicidade.

Ao dizer: “Eu revelei a doutrina divina... e disse: Vinde a mim, vós que sofreis!”

O Espírito da Verdade reforça que o Cristo é a referência suprema da humanidade, e que sua palavra permanece viva, atual e iluminadora.

2. A Humanidade e Seus Desvios

O texto prossegue dizendo que os homens se afastaram da estrada reta, preferindo as sendas difíceis da impiedade, do orgulho e da indiferença espiritual.

Esses desvios não condenam o ser humano, mas o afastam temporariamente da paz. E então, com infinita misericórdia, o Espírito da Verdade declara: “Meu Pai não quer aniquilar a raça humana... Ele quer que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, sejais socorridos.”

Aqui está uma das maiores revelações do Espiritismo: A morte não existe. Os chamados “mortos segundo a carne” continuam vivos no mundo espiritual, e cooperam conosco.

Somos uma família universal, formada por espíritos encarnados e desencarnados, trabalhando juntos para o progresso.

Por isso, as vozes espirituais nos conclamam: “Crede e orai! Porque a morte é a ressurreição, e a vida é a prova escolhida.”

3. A Luz que Deus Coloca em Nossas Mãos

A mensagem adverte: “Não afasteis a tocha que a clemência divina vos coloca nas mãos...”

Essa tocha é o conhecimento espiritual. É a oportunidade de compreender por que sofremos, de onde viemos e para onde vamos.

É a chance de orientar nossa existência pelo amor e pela caridade.

O Espírito da Verdade nos pede: Que amemos, Que meditemos, Que não misturemos “o joio ao trigo”, isto é, que evitemos confundir ilusões humanas com verdades espirituais.

E nos deixa a síntese que Kardec tornou célebre: “Espíritas: amai-vos... este é o primeiro ensinamento. Instruí-vos... este é o segundo.”

Não há reforma íntima sem amor. Não há fé sólida sem conhecimento. O Cristianismo contém todas as verdades essenciais, mas os homens, ao longo dos séculos, misturaram erro às suas lições. O Espiritismo vem restaurar essa pureza, iluminando aquilo que havia sido deturpado.

4. O Consolador dos Pobres Deserdados – Paris, 1861

Em outra comunicação, o Espírito da Verdade volta a se dirigir especialmente aos que sofrem: “Venho ensinar e consolar os pobres deserdados... venho dizer-lhes que elevem sua resignação ao nível de suas provas.” Aqui vemos um ensinamento central: O sofrimento faz parte da vida terrena, mas Deus não nos abandona.

A dor tocou o próprio Cristo no Jardim das Oliveiras; portanto, não é indigno chorar. Mas é indispensável esperar, confiar, perseverar.

O Espírito da Verdade compara a vida a um trabalho no campo: “Trabalhadores, traçai o vosso sulco... recomeçai no dia seguinte a rude jornada.”

O esforço cotidiano é essencial ao progresso. Nada se perde nas mãos de Deus. Ele afirma: “Eu, o Jardineiro divino, cultivo vossas almas no silêncio dos vossos pensamentos.”

É uma imagem profunda: Mesmo quando ninguém nos vê, Deus trabalha em nós; Mesmo quando não percebemos, estamos sendo transformados.

E então a mensagem traz uma promessa consoladora: “O mais desnudo entre vós será talvez o mais resplandecente nas esferas superiores.”

A verdadeira riqueza não está na Terra, mas no progresso espiritual.

5. O Grande Médico das Almas – Bordeaux, 1861

Outra comunicação declara: “Eu sou o grande médico das almas... os débeis e os sofredores são meus filhos prediletos.”

O Cristo é o médico que não apenas cura, mas consola. Ele alivia as chagas invisíveis, aquelas que o mundo não vê.

O Espírito da Verdade insiste: Não busquemos consolação apenas no mundo material, pois o mundo não pode oferecer a paz duradoura, Essa paz vem de Deus.

A impiedade, a mentira, o erro e a incredulidade são descritos como “monstros” que drenam nossas forças.

Para superar esses males, o Espírito da Verdade nos aconselha: Amar, Orar, Ser dóceis à inspiração dos Espíritos do Senhor, Invocar a Deus com sinceridade.

E termina com uma das mais belas promessas espirituais: “Então Ele vos enviará seu Filho bem-amado, para vos dizer: Eis-me aqui; venho a vós, porque me chamastes!”

É a certeza de que toda prece sincera encontra resposta. O socorro divino nunca falta.

6. A Consolação de Deus – Havre, 1861

No último trecho, o Espírito da Verdade afirma: “Deus consola os humildes e dá força aos aflitos que a suplicam.”

Aqui vemos que a humildade não é fraqueza, mas uma porta aberta à inspiração divina. Aquele que se coloca em posição de aprendiz recebe mais facilmente a luz.

E a mensagem conclui com duas palavras que deveriam guiar toda nossa reforma íntima: Devotamento e Abnegação

Devotamento significa dedicação sincera ao bem. Abnegação significa renúncia amorosa ao egoísmo.

Essas duas virtudes nos protegem de grande parte dos sofrimentos morais que enfrentamos. Quando o dever é cumprido e quando agimos com amor, o coração entra em paz.

O Espírito da Verdade conclui dizendo: “O corpo sofre mais quanto mais profundamente abalado estiver o espírito.”

Quando a alma se esclarece, o corpo encontra alívio. Quando o espírito se fortalece, a vida se ilumina.

Conclusão: O Chamado do Espírito da Verdade

O Advento do Espírito da Verdade representa a continuidade da obra do Cristo. Ele não vem inaugurar uma nova religião, mas reacender a mensagem pura do Evangelho, livre de distorções.

Ele nos chama: à fé raciocinada, ao amor ativo, à instrução espiritual, ao consolo verdadeiro, ao reconhecimento da imortalidade da alma, à certeza da justiça divina, à confiança de que nada se perde no Reino de Deus.

Que possamos ouvir essa voz que ecoa do Alto e que nos diz: “Amai-vos uns aos outros e instruí-vos.”, “Crede e orai.”, “Eis-me aqui; venho a vós, porque me chamastes.”

Que a luz do Espírito da Verdade continue a nos guiar, hoje e sempre.

Que assim seja.