O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

CAPÍTULO VII

BEM AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO

Instruções dos Espíritos

MISSÃO DO HOMEM INTELIGENTE NA TERRA

13. Não vos ensoberbeis do que sabeis, porquanto esse saber tem limites muito estreitos no mundo em que habitais. Suponhamos sejais sumidades em inteligência neste planeta: nenhum direito tendes de envaidecer-vos. Se Deus, em seus desígnios, vos fez nascer num meio onde pudestes desenvolver a vossa inteligência, é que quer que a utilizeis para o bem de todos; é uma missão que vos dá, pondo-vos nas mãos o instrumento com que podeis desenvolver, por vossa vez, as inteligências retardatárias e conduzi-las a Ele. A natureza do instrumento não está a indicar a que utilização deve prestar-se? A enxada que o jardineiro entrega a seu ajudante não mostra a este último que lhe cumpre cavar a terra? Que diríeis, se esse ajudante, em vez de trabalhar, erguesse a enxada para ferir o seu patrão? Diríeis que é horrível e que ele merece expulso. Pois bem: não se dá o mesmo com aquele que se serve da sua inteligência para destruir a ideia de Deus e da Providência entre seus irmãos? Não levanta ele contra o seu senhor a enxada que lhe foi confiada para arrotear o terreno? Tem ele direito ao salário prometido? Não merece, ao contrário, ser expulso do jardim? Sê-lo-á, não duvideis, e atravessará existências miseráveis e cheias de humilhações, até que se curve diante daquele a quem tudo deve.

A inteligência é rica de méritos para o futuro, mas sob a condição de ser bem empregada. Se todos os homens que a possuem dela se servissem de conformidade com a vontade de Deus, fácil seria, para os Espíritos, a tarefa de fazer que a Humanidade avance. Infelizmente, muitos a tornam instrumento de orgulho e de perdição contra si mesmos. O homem abusa da inteligência como de todas as suas outras faculdades e, no entanto, não lhe faltam ensinamentos que o advirtam de que uma poderosa mão pode retirar o que lhe concedeu.

(Ferdinando, Espírito protetor, Bordeaux, 1862).

Comentário:

Meus irmãos e irmãs, que a paz do Senhor esteja conosco.

Nesta instrução tão profunda, os Espíritos nos chamam a refletir sobre o verdadeiro papel da inteligência na vida humana. Vivemos em um mundo que valoriza o saber, o raciocínio rápido, os títulos acadêmicos e a capacidade intelectual. No entanto, o Evangelho nos alerta logo no início: “Não vos ensoberbeis do que sabeis”. Ou seja, o conhecimento, quando gera orgulho, deixa de ser virtude e passa a ser perigo.

O Espírito protetor nos lembra que todo saber humano é limitado. Por mais avançado que alguém seja intelectualmente, esse conhecimento ainda é pequeno diante das leis divinas e da vastidão da criação. Portanto, ninguém tem motivo para vaidade, porque tudo o que sabemos é apenas uma parte mínima da verdade universal.

Mais importante ainda é compreender que a inteligência não é conquista pessoal, mas concessão divina. Se Deus permite que alguém nasça em um meio favorável ao desenvolvimento intelectual, isso não ocorre por privilégio, mas por responsabilidade. A inteligência é uma missão, não um troféu.

O texto é muito claro ao afirmar que Deus coloca a inteligência nas mãos do homem como um instrumento de trabalho, destinado a ajudar no progresso coletivo. Assim como a enxada indica ao trabalhador que sua função é cavar a terra, a inteligência indica ao homem que sua função é esclarecer, educar, orientar e conduzir ao bem.

Quando alguém usa sua inteligência para destruir a fé, ridicularizar as crenças sinceras, semear a descrença ou negar sistematicamente a ideia de Deus e da Providência, está desviando a finalidade do instrumento recebido. É como o trabalhador que, em vez de usar a enxada para trabalhar, volta-se contra o próprio patrão. Nesse caso, não há mérito, mas abuso.

O Evangelho nos ensina que ninguém permanece impune ao mau uso das faculdades divinas. Não como castigo vingativo, mas como consequência educativa. Aquele que emprega a inteligência contra o bem acaba passando por experiências difíceis, humilhantes e dolorosas, até reconhecer que tudo deve a Deus e reaprender a utilizar corretamente aquilo que recebeu.

A inteligência, quando bem empregada, é fonte de grandes méritos para o futuro espiritual. Ela acelera o progresso, favorece o esclarecimento das consciências e auxilia na construção de uma sociedade mais justa. Mas, quando usada para alimentar o orgulho, a vaidade e a dominação, torna-se instrumento de queda moral.

Por isso, o Espiritismo não condena o saber, muito pelo contrário: estimula o estudo, a reflexão e o uso da razão. O que ele combate é o orgulho intelectual, a pretensão de superioridade e a ilusão de que o homem pode prescindir de Deus.

O verdadeiro homem inteligente é aquele que une conhecimento e humildade, razão e sentimento, ciência e moral. É aquele que compreende que quanto mais aprende, mais percebe o quanto ainda ignora. E que quanto mais desenvolve a mente, mais deve desenvolver o coração.

Concluindo, meus irmãos, a missão do homem inteligente na Terra é servir. Servir pelo esclarecimento, pela educação, pelo exemplo, pelo respeito às crenças alheias e pela construção do bem comum. A inteligência é luz, mas somente ilumina quando caminha junto com a humildade e a caridade.

Que saibamos, portanto, usar bem os talentos que Deus nos concede, certos de que a verdadeira grandeza não está em saber mais, mas em fazer mais bem com aquilo que sabemos.

Que assim seja. 🌿