O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
CAPÍTULO VIII
BEM AVENTURADOS OS QUE TÊM PURO O CORAÇÃO
ESCÂNDALOS. SE A VOSSA MÃO É MOTIVO DE ESCÂNDALO, CORTAI-A
11. Se algum escandalizar a um destes pequenos que creem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós que um asno faz girar e que o lançassem no fundo do mar.
Ai do mundo por causa dos escândalos; pois é necessário que venham escândalos; mas ai do homem por quem o escândalo venha. Tende muito cuidado em não desprezar um destes pequenos. Declaro-vos que seus anjos no céu veem incessantemente a face de meu Pai que está nos céus, porquanto o Filho do Homem veio salvar o que estava perdido. Se a vossa mão ou o vosso pé vos é objeto de escândalo, cortai-os e lançai-os longe de vós; melhor será para vós que entreis na vida tendo um só pé ou uma só mão, do que terdes dois e serdes lançados no fogo eterno. Se o vosso olho vos é objeto de escândalo, arrancai-o e lançai-o longe de vós; melhor para vós será que entreis na vida tendo um só olho, do que terdes dois e serdes precipitados no fogo do inferno. (Mateus,5:29 e 30; 18:6 a 11.)
12. No sentido vulgar, escândalo se diz de toda ação que de modo ostensivo vá de encontro à moral ou ao decoro. O escândalo não está na ação em si mesma, mas na repercussão que possa ter. A palavra escândalo implica sempre a ideia de um certo arruído. Muitas pessoas se contentam com evitar o escândalo, porque este lhes faria sofrer o orgulho, lhes acarretaria perda de consideração da parte dos homens. Desde que as suas torpezas fiquem ignoradas, é quanto basta para que se lhes conserve em repouso a consciência. São, no dizer de Jesus: “sepulcros branqueados por fora, mas cheios, por dentro, de podridão; vasos limpos no exterior e sujos no interior”. No sentido evangélico, a acepção da palavra escândalo, tão amiúde empregada, é muito mais geral, pelo que, em certos casos, não se lhe apreende o significado. Já não é somente o que afeta a consciência de outrem, é tudo o que resulta dos vícios e das imperfeições humanas, toda reação má de um indivíduo para outro, com ou sem repercussão. O escândalo, neste caso, é o resultado efetivo do mal moral.
13. É preciso que haja escândalo no mundo, disse Jesus, porque, imperfeitos como são na Terra, os homens se mostram propensos a praticar o mal, e porque, árvores más, só maus frutos dão. Deve-se, pois, entender por essas palavras que o mal é uma consequência da imperfeição dos homens, e não que haja, para estes, a obrigação de praticá-lo.
14. É necessário que o escândalo venha, porque, estando em expiação na Terra, os homens se punem a si mesmos pelo contato de seus vícios, cujas primeiras vítimas são eles próprios e cujos inconvenientes acabam por compreender. Quando estiverem cansados de sofrer devido ao mal, procurarão remédio no bem. A reação desses vícios serve, pois, ao mesmo tempo, de castigo para uns e de provas para outros. É assim que do mal tira Deus o bem e que os próprios homens utilizam as coisas más ou as escórias.
15. Sendo assim, dirão, o mal é necessário e durará sempre, porquanto, se desaparecesse, Deus se veria privado de um poderoso meio de corrigir os culpados. Logo, é inútil cuidar de melhorar os homens. Deixando, porém, de haver culpados, também desnecessário se tornariam quaisquer castigos. Suponhamos que a Humanidade se transforme e passe a ser constituída de homens de bem: nenhum pensará em fazer mal ao seu próximo e todos serão ditosos por serem bons. Tal a condição dos mundos elevados, donde já o mal foi banido; tal virá a ser a da Terra, quando houver progredido bastante. No entanto, ao mesmo tempo que alguns mundos se adiantam, outros se formam, povoados de Espíritos primitivos e que, além disso, servem de habitação, de exílio e de estância expiatória a Espíritos imperfeitos, rebeldes, obstinados no mal, expulsos de mundos que se tornaram felizes.
16. Mas ai daquele por quem venha o escândalo. Quer dizer que o mal sendo sempre o mal, aquele que a seu mau grado servir de instrumento à Justiça divina, aquele cujos maus instintos foram utilizados, nem por isso deixou de praticar o mal e de merecer punição. Assim é, por exemplo, que um filho ingrato é uma punição ou uma prova para o pai que sofre com isso, porque esse pai talvez tenha sido também um mau filho que fez sofresse seu pai. Passa ele pela pena de talião, mas essa circunstância não pode servir de escusa ao filho que, a seu turno, terá de ser castigado em seus próprios filhos, ou de outra maneira.
17. Se vossa mão é causa de escândalo, cortai-a. Figura enérgica esta, que seria absurda se tomada ao pé da letra, e que apenas significa que cada um deve destruir em si toda causa de escândalo, isto é, de mal; arrancar do coração todo sentimento impuro e toda tendência viciosa. Quer dizer também que, para o homem, mais vale ter cortada uma das mãos, antes que servir essa mão de instrumento para uma ação má; ficar privado da vista, antes que lhe servirem os olhos para conceber maus pensamentos. Jesus nada disse de absurdo, para quem quer que apreenda o sentido alegórico e profundo de suas palavras. Muitas coisas, entretanto, não podem ser compreendidas sem a chave que para as decifrar o Espiritismo faculta.
Comentário:
Meus irmãos e irmãs, que a paz de Jesus esteja em nossos corações.
No capítulo VIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, ao tratar do tema “Bem-aventurados os que têm puro o coração”, encontramos um dos ensinamentos mais fortes e impactantes de Jesus: o alerta sobre os escândalos e a famosa expressão “se a vossa mão é motivo de escândalo, cortai-a”. À primeira vista, essas palavras podem causar estranheza, mas, à luz do Evangelho e do Espiritismo, revelam profunda sabedoria moral.
Jesus inicia advertindo com severidade: “Ai daquele por quem venha o escândalo”. Aqui, Ele demonstra especial cuidado com os “pequenos”, isto é, os espíritos mais frágeis, mais simples ou em processo inicial de compreensão espiritual. Escandalizar, nesse contexto, não é apenas chocar ou causar indignação pública, mas levar alguém ao erro, ao desânimo, à queda moral ou ao afastamento do bem.
No sentido comum, o mundo costuma entender escândalo como algo que repercute socialmente, que gera comentários, exposição ou vergonha pública. Muitas pessoas evitam o escândalo apenas para preservar a própria imagem, não por verdadeira consciência moral. Por fora, mantêm aparência de retidão; por dentro, conservam vícios e más inclinações. É a isso que Jesus se refere quando fala dos “sepulcros branqueados”: limpos por fora, mas corrompidos por dentro.
No sentido evangélico, porém, o escândalo é muito mais amplo. Ele está presente em toda ação má, visível ou não, que resulta das imperfeições humanas e que provoca prejuízo moral a si mesmo ou ao próximo. Mesmo que ninguém veja, mesmo que não haja repercussão social, o mal praticado continua sendo escândalo diante da Lei Divina.
Jesus afirma que é necessário que haja escândalos, não porque Deus os deseje, mas porque a Humanidade ainda é imperfeita. Vivendo num mundo de expiações e provas, os homens colhem naturalmente os frutos de seus próprios vícios. O mal praticado gera sofrimento, e esse sofrimento acaba se tornando um poderoso instrumento educativo, levando o espírito, mais cedo ou mais tarde, a buscar o bem.
Dessa forma, o escândalo funciona, ao mesmo tempo, como punição para quem o pratica e como prova para quem o sofre. Deus, em sua justiça e sabedoria, sabe tirar o bem do mal, utilizando até mesmo os erros humanos como oportunidade de aprendizado e progresso espiritual.
Mas atenção: o fato de o mal ser permitido não inocenta quem o pratica. Jesus é claro ao dizer: “Ai do homem por quem venha o escândalo”. Ou seja, ninguém pode justificar suas más ações alegando que estava apenas cumprindo um papel na Justiça Divina. O indivíduo continua responsável por seus atos e responderá por eles.
O Evangelho nos oferece um exemplo claro: um filho ingrato pode ser, ao mesmo tempo, uma prova para o pai e um culpado diante da Lei de Deus. O sofrimento do pai pode ter causas em existências passadas, mas isso não diminui a responsabilidade moral do filho que age mal no presente. Cada espírito responde pelos próprios atos.
É nesse ponto que Jesus utiliza uma linguagem forte e simbólica: “Se a vossa mão é causa de escândalo, cortai-a; se o vosso olho vos é motivo de escândalo, arrancai-o”. Evidentemente, Ele não propõe mutilações físicas. Trata-se de uma figura alegórica poderosa, que nos convida à coragem da reforma íntima.
Cortar a mão, arrancar o olho, significa eliminar de nós tudo aquilo que nos leva ao mal: hábitos nocivos, paixões desordenadas, pensamentos impuros, tendências viciosas, ambientes prejudiciais, más companhias. Melhor perder algo que nos é querido no plano material do que comprometer o futuro espiritual.
Jesus ensina que é preferível abrir mão de prazeres, vantagens ou facilidades que alimentam o egoísmo e o orgulho, do que conservar tudo isso e permanecer prisioneiro do mal. A verdadeira pureza exige esforço, renúncia e vigilância constante.
O Espiritismo nos ajuda a compreender essas palavras profundas de Jesus, oferecendo a chave interpretativa que vai além da letra e alcança o espírito do ensinamento. Ele nos mostra que a verdadeira transformação não se dá por castigos externos, mas pela educação moral do espírito, através de sucessivas experiências, reflexões e escolhas conscientes.
Assim, o convite do Evangelho é claro e atual: não sejamos instrumentos de escândalo, nem para nós mesmos, nem para os outros. Trabalhemos diariamente para retirar de nosso íntimo tudo aquilo que possa gerar o mal, substituindo-o pelo amor, pela humildade e pela caridade.
Que possamos ter a coragem de “cortar” de nós o que nos afasta do bem, lembrando que a verdadeira pureza não está nas aparências, mas na transformação sincera do coração.
Que Jesus nos inspire e nos fortaleça nessa caminhada.
Que assim seja. 🌿
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