O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
CAPÍTULO XIII
NÃO SAIBA A VOSSA MÃO ESQUERDA O QUE DÊ A VOSSA MÃO DIREITA
Instruções dos Espíritos
A CARIDADE MATERIAL E A CARIDADE MORAL
Irmã Rosália, Paris, 1860
9. “Amemo-nos uns aos outros e façamos aos outros o que quereríamos nos fizessem eles.” Toda a religião, toda a moral se acham encerradas nestes dois preceitos. Se fossem observados nesse mundo, todos seríeis felizes: não mais aí ódios, nem ressentimentos. Direi ainda: não mais pobreza, porquanto, do supérfluo da mesa de cada rico, muitos pobres se alimentariam e não mais veríeis, nos quarteirões sombrios onde habitei durante a minha última encarnação, pobres mulheres arrastando consigo miseráveis crianças a quem tudo faltava.
Ricos! pensai nisto um pouco. Auxiliai os infelizes o melhor que puderdes. Dai, para que Deus, um dia, vos retribua o bem que houverdes feito, para que tenhais, ao sairdes do vosso invólucro terreno, um cortejo de Espíritos agradecidos, a receber-vos no limiar de um mundo mais ditoso. Se pudésseis saber da alegria que experimentei ao encontrar no Além aqueles a quem, na minha última existência, me fora dado servir!... Amai, portanto, o vosso próximo; amai-o como a vós mesmos, pois já sabeis, agora, que, repelindo um desgraçado, estareis, quiçá, afastando de vós um irmão, um pai, um amigo vosso de outrora. Se assim for, de que desespero não vos sentireis presa, ao reconhecê-lo no mundo dos Espíritos!
Desejo compreendais bem o que seja a caridade moral, que todos podem praticar, que nada custa, materialmente falando, porém, que é a mais difícil de exercer-se.
A caridade moral consiste em se suportarem umas às outras as criaturas e é o que menos fazeis nesse mundo inferior, onde vos achais, por agora, encarnados. Grande mérito há, crede-me, em um homem saber calar-se, deixando fale outro mais tolo do que ele. É um gênero de caridade isso. Saber ser surdo quando uma palavra zombeteira se escapa de uma boca habituada a escarnecer; não ver o sorriso de desdém com que vos recebem pessoas que, muitas vezes erradamente, se supõem acima de vós, quando na vida espírita, a única real, estão, não raro, muito abaixo, constitui merecimento, não do ponto de vista da humildade, mas do da caridade, porquanto não dar atenção ao mau proceder de outrem é caridade moral.
Essa caridade, no entanto, não deve obstar à outra. Tende, porém, cuidado, principalmente em não tratar com desprezo o vosso semelhante. Lembrai-vos de tudo o que já vos tenho dito: Tende presente sempre que, repelindo um pobre, talvez repilais um Espírito que vos foi caro e que, no momento, se encontra em posição inferior à vossa. Encontrei aqui um dos pobres da Terra, a quem, por felicidade, eu pudera auxiliar algumas vezes, e ao qual, a meu turno, tenho agora de implorar auxílio. Lembrai-vos de que Jesus disse que todos somos irmãos e pensai sempre nisso, antes de repelirdes o leproso ou o mendigo. Adeus: pensai nos que sofrem e orai.
Um Espírito Protetor, Lyon, 1860
10. Meus amigos, a muitos dentre vós tenho ouvido dizer: Como hei de fazer caridade, se amiúde nem mesmo do necessário disponho? Amigos, de mil maneiras se faz a caridade. Podeis fazê-la por pensamentos, por palavras e por ações. Por pensamentos, orando pelos pobres abandonados, que morreram sem se acharem sequer em condições de ver a luz. Uma prece feita de coração os alivia. Por palavras, dando aos vossos companheiros de todos os dias alguns bons conselhos, dizendo aos que o desespero, as privações azedaram o ânimo e levaram a blasfemar do nome do Altíssimo: “Eu era como sois; sofria, sentia-me desgraçado, mas acreditei no Espiritismo e, vede, agora sou feliz.” Aos velhos que vos disserem: “É inútil; estou no fim da minha jornada; morrerei como vivi”, dizei: “Deus usa de justiça igual para com todos nós; lembrai-vos dos obreiros da última hora.” Às crianças já viciadas pelas companhias de que se cercaram e que vão pelo mundo, prestes a sucumbir às más tentações, dizei: “Deus vos vê, meus caros pequenos”, e não vos canseis de lhes repetir essas brandas palavras. Elas acabarão por lhes germinar nas inteligências infantis e, em vez de vagabundos, fareis deles homens. Também isso é caridade. Dizem, outros dentre vós: “Ora! somos tão numerosos na Terra, que Deus não nos pode ver a todos.” Escutai bem isto, meus amigos: Quando estais no cume da montanha, não abrangeis com o olhar os bilhões de grãos de areia que a cobrem? Pois bem: do mesmo modo vos vê Deus. Ele vos deixa usar do vosso livre-arbítrio, como vós deixais que esses grãos de areia se movam ao sabor do vento que os dispersa. Apenas, Deus, em sua misericórdia infinita, vos pôs no fundo do coração uma sentinela vigilante, que se chama consciência. Escutai-a, que somente bons conselhos ela vos dará. Às vezes, conseguis entorpecê-la, opondo-lhe o espírito do mal. Ela, então, se cala. Ficai certos, porém, de que a pobre escorraçada se fará ouvir, logo que lhe deixardes aperceber-se da sombra do remorso. Ouvi-a, interrogai-a e com frequência vos achareis consolados com o conselho que dela houverdes recebido. Meus amigos, a cada regimento novo o general entrega um estandarte. Eu vos dou por divisa esta máxima do Cristo: “Amai-vos uns aos outros.” Observai esse preceito, reuni-vos todos sob essa bandeira e tereis ventura e consolação.
Comentário:
Meus irmãos e minhas irmãs, que a Paz de Jesus Cristo seja conosco,
O Capítulo XIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, intitulado “Não saiba a vossa mão esquerda o que dê a vossa mão direita”, nos conduz ao coração do ensinamento cristão: a vivência sincera da caridade, sem ostentação, sem orgulho e sem interesses pessoais.
Logo no início da instrução da Irmã Rosália, somos lembrados de dois preceitos que resumem toda a religião e toda a moral: amar uns aos outros e fazer ao próximo aquilo que gostaríamos que nos fosse feito. Se esses princípios fossem realmente vividos, diz o Espírito, não haveria ódio, ressentimento nem miséria. A pobreza extrema, que humilha e fere a dignidade humana, deixaria de existir, pois o supérfluo de alguns seria suficiente para aliviar a necessidade de muitos.
Aqui, percebemos que a caridade material é apresentada como um dever moral daqueles que possuem mais recursos. Não se trata de culpa, mas de responsabilidade. Deus não nos concede bens ao acaso. Aquilo que temos em excesso é, muitas vezes, uma oportunidade de aprendizado e de serviço. A riqueza, quando usada com egoísmo, torna-se prova difícil; quando compartilhada, converte-se em bênção.
Entretanto, o texto nos conduz a uma reflexão ainda mais profunda: a caridade não se limita à doação de bens materiais. Existe uma forma de caridade que todos podem praticar, independentemente da condição financeira — a caridade moral, considerada pelos Espíritos como a mais difícil de ser exercida.
A caridade moral exige esforço íntimo. Ela se manifesta na tolerância, na paciência, na indulgência com as imperfeições alheias. É saber calar quando o orgulho pede resposta. É suportar sem humilhar, corrigir sem ferir, compreender sem condenar. Muitas vezes, calar-se diante da ofensa é um ato de amor maior do que qualquer esmola oferecida.
A Irmã Rosália nos lembra que ignorar uma palavra zombeteira, não reagir ao desprezo e não alimentar ressentimentos são formas elevadas de caridade. Não dar atenção ao mal é uma maneira eficaz de não permitir que ele se propague. Isso não significa conivência com o erro, mas escolha consciente de agir com equilíbrio e misericórdia.
Outro ponto profundamente tocante do texto é o alerta para que não desprezemos ninguém, sobretudo os mais humildes e sofredores. O mendigo rejeitado hoje pode ser um espírito que já nos foi caro em outra existência. A vida espiritual revela laços que desconhecemos na Terra. Quantos reencontros nos aguardam no mundo espiritual, trazendo alegria ou remorso, conforme a maneira como tratamos os outros?
Na segunda instrução, o Espírito Protetor de Lyon responde a uma pergunta muito comum: “Como fazer caridade se nem mesmo tenho o necessário?” E a resposta é simples e consoladora: a caridade pode ser feita de mil maneiras.
Podemos fazer caridade pelos pensamentos, através da prece sincera. Uma oração feita com o coração tem força real de auxílio. Pelas palavras, oferecendo consolo, esperança e orientação àqueles que se encontram desanimados, revoltados ou descrentes. Uma palavra amiga, dita no momento certo, pode impedir uma queda moral ou reacender a fé em alguém.
O texto destaca ainda a importância da caridade junto às crianças e aos jovens, muitas vezes já desviados por más influências. Uma palavra repetida com amor, um conselho perseverante, pode germinar silenciosamente e transformar destinos. Isso também é caridade.
Por fim, somos lembrados de um instrumento divino que nunca nos abandona: a consciência. Ela é a sentinela vigilante colocada por Deus em nossos corações. Quando a escutamos, encontramos orientação e paz. Quando a silenciamos, o remorso se encarrega de fazê-la despertar novamente. A consciência é a voz de Deus em nós, apontando sempre o caminho do bem.
O Espírito encerra deixando-nos uma divisa clara e eterna: “Amai-vos uns aos outros.” Sob essa bandeira, encontraremos consolação, equilíbrio e verdadeira felicidade.
Que possamos sair desta reflexão com o firme propósito de praticar tanto a caridade material quanto a caridade moral, lembrando sempre que não basta dar coisas — é preciso dar amor, respeito e compreensão. Assim, estaremos vivendo o Evangelho em espírito e verdade.
Que Jesus nos inspire e nos fortaleça no caminho do bem.
Que assim seja!
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