O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

CAPÍTULO XVI

NÃO SE PODE SERVIR A DEUS E A MAMON

Instruções dos Espíritos

TRANSMISSÃO DA RIQUEZA

São Luís, Paris, 1863

15. O princípio, segundo o qual ele é apenas depositário da fortuna de que Deus lhe permite gozar durante a vida, tira ao homem o direito de transmiti-la aos seus descendentes?

O homem pode perfeitamente transmitir, por sua morte, aquilo de que gozou durante a vida, porque o efeito desse direito está subordinado sempre à vontade de Deus, que pode, quando quiser, impedir que aqueles descendentes gozem do que lhes foi transmitido. Não é outra a razão por que desmoronam fortunas que parecem solidamente constituídas. É, pois, impotente a vontade do homem para conservar nas mãos da sua descendência a fortuna que possua. Isso, entretanto, não o priva do direito de transmitir o empréstimo que recebeu de Deus, uma vez que Deus pode retirá-lo, quando o julgue oportuno.

Comentário:

Meus irmãos e minhas irmãs,

A instrução dos Espíritos apresentada por São Luís nos convida a refletir sobre um tema muito presente na vida humana: o direito de transmitir a riqueza aos descendentes.

À primeira vista, essa questão parece simples, pois a sociedade reconhece a herança como algo natural. No entanto, o Espiritismo nos leva além da aparência legal e social, conduzindo-nos à origem espiritual da riqueza e ao verdadeiro papel do homem diante dos bens materiais.

O ponto central do texto é a afirmação de que o homem não é proprietário absoluto da fortuna, mas apenas depositário temporário dos bens que Deus lhe permite usufruir durante a vida.

Tudo o que possuímos — dinheiro, propriedades, recursos — pertence, em última instância, a Deus. O homem administra esses bens por um tempo limitado, segundo as circunstâncias e as leis divinas.

Essa compreensão muda profundamente nossa relação com a riqueza, pois nos retira a ilusão de domínio absoluto sobre aquilo que é transitório.

São Luís esclarece que o homem pode, sim, transmitir aos seus descendentes aquilo de que gozou em vida. Não há erro moral em deixar bens à família.

Entretanto, esse direito está sempre subordinado à vontade de Deus. Nenhuma herança está garantida de forma definitiva, pois Deus pode, quando julgar oportuno, impedir que os herdeiros usufruam do que foi transmitido.

É por essa razão que vemos fortunas sólidas desmoronarem, patrimônios desaparecerem e riquezas acumuladas com tanto esforço se perderem em poucas gerações. Isso demonstra que a vontade humana é impotente diante das leis divinas.

A instrução nos alerta para uma ilusão comum: a crença de que o dinheiro pode assegurar o futuro dos filhos de maneira absoluta.

Mesmo que o homem trabalhe arduamente para acumular bens, não pode garantir que esses recursos cumprirão o destino imaginado. A segurança verdadeira não está na herança material, mas na educação moral, espiritual e no exemplo de retidão deixado aos descendentes.

Embora não seja proprietário absoluto, o homem não perde o direito de transmitir o empréstimo recebido, desde que compreenda sua responsabilidade moral.

Isso significa que a riqueza deve ser adquirida de forma honesta, administrada com sabedoria e transmitida sem egoísmo excessivo, lembrando sempre que Deus pode retomá-la a qualquer momento.

Mais importante do que o valor transmitido é a consciência tranquila de quem soube usar os bens como instrumento do bem, sem escravizar-se a eles.

A lição de São Luís reforça o ensino de Jesus: não se pode servir a Deus e a Mamon.

Servir a Mamon é acreditar que a riqueza tudo resolve, tudo garante e tudo controla. Servir a Deus é reconhecer que a matéria é passageira e que somos apenas administradores temporários dos bens terrenos.

Transmitir riquezas é um direito, mas confiar nelas como garantia absoluta do futuro é um engano. O verdadeiro legado que permanece é o da fé, da caridade, do trabalho honesto e do amor ao próximo.

Que saibamos, portanto, usar e transmitir os bens da Terra com humildade, consciência e responsabilidade espiritual, lembrando sempre que Deus é o verdadeiro Senhor de todas as coisas.

Que a paz de Jesus Nosso Divino Mestre seja conosco.

Que assim seja.