O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

CAPÍTULO XVI

NÃO SE PODE SERVIR A DEUS E A MAMON

JESUS EM CASA DE ZAQUEU

4. Tendo Jesus entrado em Jericó, passava pela cidade e havia ali um homem chamado Zaqueu, chefe dos publicanos e muito rico, o qual, desejoso de ver a Jesus, para conhecê-lo, não o conseguia devido à multidão, por ser ele de estatura muito baixa. Por isso, correu à frente da turba e subiu a um sicômoro, para o ver, porquanto Ele tinha de passar por ali. Chegando a esse lugar, Jesus dirigiu para o alto o olhar e, vendo-o, disse-lhe: “Zaqueu, dá-te pressa em descer, porquanto preciso que me hospedes hoje em tua casa.” — Zaqueu desceu imediatamente e o recebeu jubiloso. Vendo isso, todos murmuravam, a dizer: “Ele foi hospedar-se em casa de um homem de má vida.”. Entretanto, Zaqueu, pondo-se diante do Senhor, disse-lhe: “Senhor, dou a metade dos meus bens aos pobres e, se causei dano a alguém, seja no que for, indenizo-o com quatro tantos.” — Ao que Jesus lhe disse: “Esta casa recebeu hoje a salvação, porque também este é filho de Abraão; visto que o Filho do Homem veio para procurar e salvar o que estava perdido.” (Lucas, 19:1 a 10.)

Comentário:

Meus irmãos e minhas irmãs,

No Capítulo XVI de O Evangelho Segundo o Espiritismo, encontramos um dos episódios mais tocantes do Evangelho: o encontro de Jesus com Zaqueu. Essa passagem nos ensina, de forma prática e comovente, que a verdadeira transformação espiritual nasce do arrependimento sincero, do desapego e da caridade ativa.

Zaqueu era chefe dos publicanos e muito rico. Os publicanos eram cobradores de impostos a serviço do poder romano e, por isso, vistos com desprezo pelo povo, considerados homens injustos e de má vida. Apesar de sua posição e riqueza, Zaqueu trazia no íntimo um vazio espiritual. Ele desejava ver Jesus, conhecê-lo, mas encontrava dificuldades: a multidão e sua pequena estatura o impediam.

Esse detalhe simbólico nos ensina que, muitas vezes, não são apenas obstáculos externos que nos afastam do Cristo, mas também nossas limitações morais. Ainda assim, Zaqueu não desiste. Ele corre, sobe em uma árvore e se expõe ao ridículo para poder ver o Mestre. Esse gesto revela humildade e desejo sincero de mudança.

Jesus, ao passar, levanta os olhos, chama Zaqueu pelo nome e diz: “Hoje preciso hospedar-me em tua casa.” Com isso, o Cristo demonstra que não veio buscar os que se julgam justos, mas aqueles que reconhecem suas imperfeições e desejam melhorar. A multidão murmura, julgando Jesus por entrar na casa de um homem considerado pecador. Mais uma vez, vemos o contraste entre o julgamento humano e a misericórdia divina.

Diante da presença de Jesus, Zaqueu não recebe uma ordem direta para mudar. A transformação nasce espontaneamente. Ele declara que dará metade de seus bens aos pobres e que restituirá quatro vezes mais a quem tenha prejudicado. Aqui está a grande lição: o verdadeiro arrependimento se comprova pelas ações. Zaqueu não apenas sente remorso; ele repara o mal praticado e se compromete com a justiça e a caridade.

Jesus, então, afirma: “Hoje entrou a salvação nesta casa.” Não porque Zaqueu deixou de ser rico, mas porque deixou de ser escravo da riqueza. Ele compreendeu que os bens materiais são meios de reparação e de auxílio, e não instrumentos de egoísmo. Zaqueu passa a servir a Deus, e não mais a Mamon.

O Espiritismo esclarece que a salvação não está na negação dos bens, mas no uso correto deles. A riqueza é uma prova, e Zaqueu vence essa prova ao transformar o apego em desapego, a injustiça em reparação e o egoísmo em caridade.

Meus irmãos, essa passagem nos convida a uma reflexão íntima: o que precisamos descer de nossas árvores interiores para acolher o Cristo em nossa casa? Quais apegos, orgulho ou interesses materiais ainda nos impedem de viver plenamente o Evangelho?

Que o exemplo de Zaqueu nos inspire a abrir as portas do coração para Jesus, lembrando que, quando o amor e a caridade entram, a salvação se faz presente. Porque, em verdade, não se pode servir a Deus e a Mamon, mas quando escolhemos servir a Deus, a vida encontra seu verdadeiro sentido.

Que a paz de Jesus Nosso Divino Mestre seja conosco.

Que assim seja.