O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
CAPÍTULO XX
Instruções dos Espíritos
MISSÃO DOS ESPÍRITAS
Erasto, anjo da guarda do médium, Paris, 1863
4. Não escutais já o ruído da tempestade que há de arrebatar o velho mundo e abismar no nada o conjunto das iniquidades terrenas? Ah! bendizei o Senhor, vós que haveis posto a vossa fé na sua soberana justiça e que, novos apóstolos da crença revelada pelas proféticas vozes superiores, ides pregar o novo dogma da reencarnação e da elevação dos Espíritos, conforme tenham cumprido, bem ou mal, suas missões e suportado suas provas terrestres. Não mais vos assusteis! As línguas de fogo estão sobre as vossas cabeças. Ó verdadeiros adeptos do Espiritismo!... sois os escolhidos de Deus! Ide e pregai a palavra divina. É chegada a hora em que deveis sacrificar à sua propagação os vossos hábitos, os vossos trabalhos, as vossas ocupações fúteis. Ide e pregai. Convosco estão os Espíritos elevados. Certamente falareis a criaturas que não quererão escutar a voz de Deus, porque essa voz as exorta incessantemente à abnegação. Pregareis o desinteresse aos avaros, a abstinência aos dissolutos, a mansidão aos tiranos domésticos, como aos déspotas! Palavras perdidas, eu o sei; mas não importa. Faz-se mister regueis com os vossos suores o terreno onde tendes de semear, porquanto ele não frutificará e não produzirá senão sob os reiterados golpes da enxada e da charrua evangélicas. Ide e pregai!
Ó todos vós, homens de boa-fé, conscientes da vossa inferioridade em face dos mundos disseminados pelo Infinito!... lançai-vos em cruzada contra a injustiça e a iniquidade. Ide e proscrevei esse culto do bezerro de ouro, que cada dia mais se alastra. Ide, Deus vos guia! Homens simples e ignorantes, vossas línguas se soltarão e falareis como nenhum orador fala. Ide e pregai, que as populações atentas recolherão ditosas as vossas palavras de consolação, de fraternidade, de esperança e de paz. Que importam as emboscadas que vos armem pelo caminho! Somente lobos caem em armadilhas para lobos, porquanto o pastor saberá defender suas ovelhas das fogueiras imoladoras. Ide, homens, que, grandes diante de Deus, mais ditosos do que Tomé, credes sem fazerdes questão de ver e aceitais os fatos da mediunidade, mesmo quando não tenhais conseguido obtê-los por vós mesmos; ide, o Espírito de Deus vos conduz.
Marcha, pois, avante, falange imponente pela tua fé! Diante de ti os grandes batalhões dos incrédulos se dissiparão, como a bruma da manhã aos primeiros raios do sol nascente.
“A fé é a virtude que desloca montanhas”, disse Jesus. Todavia, mais pesados do que as maiores montanhas, jazem depositados nos corações dos homens a impureza e todos os vícios que derivam da impureza. Parti, então, cheios de coragem, para removerdes essa montanha de iniquidades que as futuras gerações só deverão conhecer como lenda, do mesmo modo que vós, que só muito imperfeitamente conheceis os tempos que antecederam a civilização pagã. Sim, em todos os pontos do globo vão produzir-se as subversões morais e filosóficas; aproxima-se a hora em que a luz divina se espargirá sobre os dois mundos. Ide, pois, e levai a palavra divina: aos grandes que a desprezarão, aos eruditos que exigirão provas, aos pequenos e simples que a aceitarão; porque, principalmente entre os mártires do trabalho, desta provação terrena, encontrareis fervor e fé. Ide; estes receberão, com hinos de gratidão e louvores a Deus, a santa consolação que lhes levareis, e baixarão a fronte, rendendo-lhe graças pelas aflições que a Terra lhes destina. Arme-se a vossa falange de decisão e coragem! Mãos à obra! o arado está pronto; a terra espera; arai!
Ide e agradecei a Deus a gloriosa tarefa que Ele vos confiou; mas atenção! entre os chamados para o Espiritismo muitos se transviaram; reparai, pois, vosso caminho e segui a verdade.
Pergunta. – Se, entre os chamados para o Espiritismo, muitos se transviaram, quais os sinais pelos quais reconheceremos os que se acham no bom caminho?
Resposta. – Reconhecê-los-eis pelos princípios da verdadeira caridade que eles ensinarão e praticarão. Reconhecê-los-eis pelo número de aflitos a que levem consolo; reconhecê-los-eis pelo seu amor ao próximo, pela sua abnegação, pelo seu desinteresse pessoal; reconhecê-los-eis, finalmente, pelo triunfo de seus princípios, porque Deus quer o triunfo de sua lei; os que seguem sua lei, esses são os escolhidos e Ele lhes dará a vitória; mas Ele destruirá aqueles que falseiam o espírito dessa lei e fazem dela degrau para contentar sua vaidade e sua ambição.
Comentário:
Meus irmãos, que a paz do Cristo esteja conosco.
O texto da Missão dos Espíritas, ditado por Erasto, é um dos mais fortes e convocatórios de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Ele não se limita a explicar princípios doutrinários; ele nos chama à responsabilidade moral, ao compromisso com o bem e à vivência prática do Evangelho à luz do Espiritismo.
Logo no início, o Espírito nos convida a perceber os sinais do tempo: a “tempestade” que abala o velho mundo não é uma destruição material, mas uma transformação moral. Trata-se do fim gradual das estruturas baseadas no egoísmo, na injustiça, no orgulho e na exploração. Esse processo é necessário, porque a humanidade caminha para uma etapa mais elevada de consciência espiritual.
Nesse contexto, os espíritas são chamados de “novos apóstolos”. Isso não significa privilégio, mas responsabilidade. A missão confiada é a de divulgar o princípio da reencarnação e da justiça divina, mostrando que cada Espírito colhe, ao longo das existências, os frutos de suas escolhas, aprendendo com as provas e reparando os erros. Essa mensagem consola, esclarece e, ao mesmo tempo, convida à transformação íntima.
Erasto utiliza a simbologia das “línguas de fogo”, remetendo ao Pentecostes, para indicar que a inspiração espiritual não está restrita a poucos eleitos, mas se manifesta em todos aqueles que trabalham com sinceridade, fé e humildade. A verdadeira autoridade do espírita não vem do discurso bonito, mas da coerência entre o que fala e o que vive.
O texto também nos alerta: a tarefa não será fácil. Muitos não desejarão ouvir a mensagem, porque ela exige renúncia, abnegação e mudança de hábitos. Falar de desinteresse aos avarentos, de mansidão aos violentos e de equilíbrio aos excessos sempre provocará resistência. Contudo, o ensinamento é claro: ainda que pareça palavra perdida, o esforço nunca é inútil. O bem precisa ser semeado repetidas vezes para que, no tempo certo, produza frutos.
Outro ponto central é o combate ao “culto do bezerro de ouro”, ou seja, à idolatria do dinheiro, do poder e das vantagens materiais. O Espiritismo não condena o progresso nem o trabalho, mas denuncia a inversão de valores que transforma o material em finalidade da vida, esquecendo que somos Espíritos imortais em experiência passageira na Terra.
Erasto também destaca que não são os títulos acadêmicos nem a eloquência que fazem o verdadeiro trabalhador do Cristo. Muitas vezes, os mais simples, os que sofrem no dia a dia do trabalho árduo, são os que melhor acolhem a mensagem de esperança, porque sentem na própria vida a necessidade de consolo e fé. É a esses corações que o Espiritismo, vivido com amor, leva alívio, sentido e força para perseverar.
Quando o texto afirma que “a fé é a virtude que desloca montanhas”, ele nos lembra que as maiores barreiras não estão fora de nós, mas dentro do coração humano: o orgulho, a vaidade, o egoísmo e os vícios morais. A missão espírita é, antes de tudo, ajudar a remover essas montanhas interiores, começando por nós mesmos.
Entretanto, o Espírito faz um alerta muito sério: entre os chamados, muitos se desviam. E então surge a pergunta fundamental: como reconhecer os que estão no bom caminho? A resposta é objetiva e profundamente evangélica: pelos sinais da verdadeira caridade. Não por discursos, cargos ou aparências, mas pelo consolo oferecido aos aflitos, pelo amor ao próximo, pela abnegação, pelo desinteresse pessoal e pela fidelidade à lei divina.
Deus, diz Erasto, não sustenta aqueles que usam o Espiritismo para alimentar vaidade ou ambição. A Doutrina Espírita não é instrumento de poder humano, mas caminho de serviço, humildade e transformação moral. O triunfo prometido é o triunfo do bem, não das personalidades.
Assim, a missão dos espíritas hoje continua a mesma: trabalhar pela regeneração moral da humanidade, começando pela própria reforma íntima; semear esperança onde há dor; esclarecer sem impor; amar sem esperar retorno; servir sem buscar reconhecimento.
Que possamos, portanto, ouvir esse chamado com seriedade e gratidão, lembrando sempre que a melhor pregação do Espiritismo é o exemplo silencioso de uma vida pautada no Evangelho vivido, sentido e praticado.
Que assim seja.
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