O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
CAPÍTULO XXI
HAVERÁ FALSOS CRISTOS E FALSOS PROFETAS
Instruções dos Espíritos
OS FALSOS PROFETAS
Luís, Bordeaux, 1861
8. Se vos disserem: “O Cristo está aqui”, não vades; ao contrário, tende-vos em guarda, porquanto numerosos serão os falsos profetas. Não vedes que as folhas da figueira começam a branquear; não vedes os seus múltiplos rebentos aguardando a época da floração; e não vos disse o Cristo: “Conhece-se a árvore pelo fruto?” Se, pois, são amargos os frutos, já sabeis que má é a árvore; se, porém, são doces e saudáveis, direis: “Nada que seja puro pode provir de fonte má.” É assim, meus irmãos, que deveis julgar; são as obras que deveis examinar. Se os que se dizem investidos de poder divino revelam sinais de uma missão de natureza elevada, isto é, se possuem no mais alto grau as virtudes cristãs e eternas: a caridade, o amor, a indulgência, a bondade que concilia os corações; se, em apoio das palavras, apresentam os atos, podereis então dizer: Estes são realmente enviados de Deus.
Desconfiai, porém, das palavras melífluas, desconfiai dos escribas e dos fariseus que oram nas praças públicas, vestidos de longas túnicas. Desconfiai dos que pretendem ter o monopólio da verdade! Não, não, o Cristo não está entre esses, porquanto os que Ele envia para propagar a sua santa doutrina e regenerar o seu povo serão, acima de tudo, seguindo-lhe o exemplo, brandos e humildes de coração; os que hajam, com os exemplos e conselhos que prodigalizem, de salvar a humanidade, que corre para a perdição e pervaga por caminhos tortuosos, serão essencialmente modestos e humildes. De tudo o que revele um átomo de orgulho, fugi, como de uma moléstia contagiosa, que corrompe tudo em que toca. Lembrai-vos de que cada criatura traz na fronte, mas principalmente nos atos, o cunho da sua grandeza ou da sua inferioridade. Ide, portanto, meus filhos bem-amados, caminhai sem tergiversações, sem pensamentos ocultos, na rota bendita que tomastes. Ide, ide sempre, sem temor; afastai, cuidadosamente, tudo o que vos possa entravar a marcha para o objetivo eterno. Viajores, só por pouco tempo mais estareis nas trevas e nas dores da provação, se abrirdes o vosso coração a essa suave doutrina que vos vem revelar as leis eternas e satisfazer a todas as aspirações de vossa alma acerca do desconhecido. Já podeis dar corpo a esses silfos ligeiros que vedes passar nos vossos sonhos e que, efêmeros, apenas vos encantavam o espírito, sem coisa alguma dizerem ao vosso coração. Agora, meus amados, a morte desapareceu, dando lugar ao anjo radioso que conheceis, o anjo do novo encontro e da reunião! Agora, vós que bem desempenhado haveis a tarefa que o Criador confia às suas criaturas, nada mais tendes de temer da sua justiça, pois Ele é pai e perdoa sempre aos filhos transviados que clamam por misericórdia. Continuai, portanto, avançai incessantemente. Seja vossa divisa a do progresso, do progresso contínuo em todas as coisas, até que, finalmente, chegueis ao termo feliz da jornada, onde vos esperam todos os que vos precederam.
Comentário:
Meus irmãos, que a paz do Cristo esteja conosco.
O ensinamento transmitido pelo Espírito Luís, neste capítulo do Evangelho Segundo o Espiritismo, é um apelo firme ao discernimento, à vigilância moral e à fidelidade ao espírito do Cristo. Em tempos de grande transformação espiritual da humanidade, multiplicam-se as vozes que se dizem portadoras da verdade. Por isso, Jesus advertiu: “Se vos disserem: ‘O Cristo está aqui’, não vades.”
Essa orientação não é convite à desconfiança cega, mas ao uso da razão iluminada pelo Evangelho. O Cristo não se manifesta por anúncios sensacionais, nem por personalidades que se proclamam exclusivas detentoras da verdade. Ele se revela pela transformação moral que promove, pelos frutos que gera.
A imagem da figueira, com suas folhas e rebentos, simboliza os sinais do tempo. Vivemos um período de renovação espiritual, mas essa renovação exige critério. Jesus já havia nos ensinado: “Conhece-se a árvore pelo fruto.” Se os frutos são amargos — se produzem discórdia, fanatismo, orgulho ou submissão cega — a árvore não é boa. Se os frutos são doces e saudáveis — amor, consolo, humildade e caridade — então a fonte é pura.
O texto é muito claro ao afirmar que as obras devem ser examinadas, não as palavras. Aqueles que verdadeiramente são enviados de Deus manifestam, acima de tudo, as virtudes cristãs: caridade, amor, indulgência e bondade que une os corações. Não basta falar em nome do Cristo; é preciso viver como Ele viveu.
Por isso, o Espírito Luís nos convida à prudência diante das palavras suaves demais, dos discursos encantadores e da religiosidade exibida. A advertência contra os “escribas e fariseus” permanece atual. O orgulho espiritual, a ostentação da fé e a pretensão de possuir o monopólio da verdade são sinais claros de afastamento do Cristo.
O verdadeiro enviado de Deus é brando e humilde de coração, como foi Jesus. Ele não impõe, não ameaça, não domina consciências. Ele orienta, exemplifica e serve. Onde há orgulho, vaidade ou autoritarismo, ali não está o Cristo.
O texto também nos alerta a fugir de tudo o que revele um traço de orgulho, comparando-o a uma moléstia contagiosa que corrompe tudo o que toca. A grandeza do Espírito se revela nos atos, não nos títulos, nem nas promessas extraordinárias.
Por fim, o Espírito Luís nos oferece uma mensagem de esperança e encorajamento. Ele nos convida a seguir sem hesitações o caminho bendito do progresso espiritual, afastando tudo o que possa retardar nossa marcha. Somos viajores temporários na Terra, e as dores da provação não são eternas.
A Doutrina Espírita nos revela que a morte não é o fim, mas a continuidade da vida; não é separação definitiva, mas reencontro. Deus é Pai Justo e misericordioso, que acolhe os filhos arrependidos e perseverantes no bem.
Assim, a divisa que nos é proposta é clara: progresso contínuo, moral e espiritual, até alcançarmos o termo feliz da jornada. Que saibamos reconhecer o verdadeiro Cristo não em proclamações externas, mas na vivência sincera do amor, da humildade e da caridade.
Que assim seja.
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