O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

CAPÍTULO XXVI

DAI GRATUITAMENTE O QUE GRATUITAMENTE RECEBESTES

DOM DE CURAR

1. Restituí a saúde aos doentes, ressuscitai os mortos, curai os leprosos, expulsai os demônios. Dai gratuitamente o que gratuitamente haveis recebido. (Mateus, 10:8.)

2. “Dai gratuitamente o que gratuitamente haveis recebido”, diz Jesus a seus discípulos. Com essa recomendação, prescreve que ninguém se faça pagar daquilo por que nada pagou. Ora, o que eles haviam recebido gratuitamente era a faculdade de curar os doentes e de expulsar os demônios, isto é, os maus Espíritos. Esse dom Deus lhes dera gratuitamente, para alívio dos que sofrem e como meio de propagação da fé; Jesus, pois, recomendava-lhes que não fizessem dele objeto de comércio, nem de especulação, nem meio de vida.

Comentário:

Meus irmãos e minhas irmãs, que a paz de Jesus esteja conosco.

Neste ensinamento, Jesus dirige aos seus discípulos uma orientação clara e profunda: “Dai gratuitamente o que gratuitamente haveis recebido.” Essa frase resume um princípio moral elevado, que vai muito além do simples ato de curar doenças do corpo. Ela trata da pureza de intenção no serviço ao próximo e do uso correto dos dons concedidos por Deus.

Os apóstolos haviam recebido gratuitamente faculdades extraordinárias: curar os enfermos, aliviar sofrimentos, libertar as criaturas da influência de maus Espíritos. Nada disso lhes pertencia como propriedade pessoal. Eram instrumentos da misericórdia divina. Por isso, Jesus os adverte para que não transformassem essas faculdades em meio de lucro, comércio ou prestígio.

O dom que vem de Deus tem finalidade nobre: servir, aliviar, consolar e esclarecer. Quando alguém tenta explorar esse dom para benefício próprio, desvia-se da finalidade divina e perde a legitimidade moral do que faz. A gratuidade preserva a pureza da ação e impede que interesses materiais contaminem a obra espiritual.

À luz do Espiritismo, esse ensinamento ganha aplicação direta na mediunidade. A faculdade mediúnica, assim como o dom de curar, não é privilégio, nem recompensa por méritos pessoais. É uma oportunidade de trabalho, muitas vezes concedida a Espíritos ainda imperfeitos, justamente como meio de aprendizado, reparação e progresso moral.

Por isso, o Espiritismo ensina que não se deve cobrar pela prática mediúnica, seja ela de cura, orientação espiritual ou comunicação com os Espíritos. Cobrar seria transformar em mercadoria aquilo que pertence a Deus e que foi concedido gratuitamente. Além disso, o interesse financeiro pode atrair Espíritos levianos, mistificadores ou inferiores, comprometendo a seriedade do trabalho espiritual.

Isso não significa desvalorizar o esforço humano. O trabalhador merece o sustento pelo seu trabalho material, mas o serviço espiritual deve manter-se livre de exploração. A caridade, nesse contexto, é o selo da verdadeira mediunidade cristã.

Jesus, ao recomendar a gratuidade, também nos ensina sobre desapego e humildade. Quem serve esperando recompensa já recebeu o pagamento na satisfação pessoal. Quem serve por amor, sem exigir retorno, acumula tesouros espirituais.

Assim, “dar gratuitamente” não se limita aos dons extraordinários. Aplica-se também ao conhecimento, à orientação moral, ao consolo, à escuta fraterna, ao tempo dedicado ao bem. Tudo o que recebemos de bom — inteligência, fé, oportunidades, esclarecimento — deve ser repartido sem cálculo, conforme nossas possibilidades.

Concluindo, esse ensinamento nos recorda que somos apenas instrumentos da bondade divina. Quanto mais desinteressado for o serviço, mais fiel ele será ao Evangelho. Dar gratuitamente é confiar em Deus, servir com amor e compreender que o verdadeiro pagamento não vem da Terra, mas da paz da consciência e do progresso do Espírito.

Que assim seja.