O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO

CAPÍTULO XXVII

PEDI E OBTEREIS

Instruções dos Espíritos

FELICIDADE QUE A PRECE PROPORCIONA

Santo Agostinho Paris, 1861

23. Vinde, vós que desejais crer. Os Espíritos celestes acorrem a vos anunciar grandes coisas. Deus, meus filhos, abre os seus tesouros, para vos outorgar todos os benefícios. Homens incrédulos! Se soubésseis quão grande bem faz a fé ao coração e como induz a alma ao arrependimento e à prece! A prece! ah!... como são tocantes as palavras que saem da boca daquele que ora! A prece é o orvalho divino que aplaca o calor excessivo das paixões. Filha primogênita da fé, ela nos encaminha para a senda que conduz a Deus. No recolhimento e na solidão, estais com Deus. Para vós, já não há mistérios; eles se vos desvendam. Apóstolos do pensamento, é para vós a vida. Vossa alma se desprende da matéria e rola por esses mundos infinitos e etéreos, que os pobres humanos desconhecem. Avançai, avançai pelas veredas da prece e ouvireis as vozes dos anjos. Que harmonia! Já não são o ruído confuso e os sons estrídulos da Terra; são as liras dos arcanjos; são as vozes brandas e suaves dos serafins, mais delicadas do que as brisas matinais, quando brincam na folhagem dos vossos bosques. Por entre que delícias não caminhareis! A vossa linguagem não poderá exprimir essa ventura, tão rápida entra ela por todos os vossos poros, tão vivo e refrigerante é o manancial em que, orando, se bebe. Dulçorosas vozes, inebriantes perfumes, que a alma ouve e aspira, quando se lança a essas esferas desconhecidas e habitadas pela prece! Sem mescla de desejos carnais, são divinas todas as aspirações. Também vós, orai como o Cristo, levando a sua cruz ao Gólgota, ao Calvário. Carregai a vossa cruz e sentireis as doces emoções que lhe perpassavam na alma, se bem que vergado ao peso de um madeiro infamante. Ele ia morrer, mas para viver a vida celestial na morada de seu Pai.

Comentário:

Meus irmãos e minhas irmãs, que a paz de Jesus esteja conosco.

Nesta bela instrução espiritual, Santo Agostinho nos convida a refletir sobre a felicidade profunda e transformadora que a prece proporciona à alma humana. Ele inicia chamando aqueles que desejam crer, mostrando que a fé não é uma imposição, mas um convite amoroso de Deus, que abre seus tesouros espirituais a todos os filhos que se dispõem a buscá-Lo com sinceridade.

A fé, segundo o ensinamento, exerce um bem imenso sobre o coração humano. Ela suaviza as dores morais, desperta o arrependimento sincero e conduz naturalmente à prece. A prece surge, então, como consequência viva da fé: não uma obrigação, mas uma necessidade da alma que deseja se elevar. Santo Agostinho a compara a um “orvalho divino”, capaz de aplacar o calor excessivo das paixões humanas, acalmando inquietações, angústias e conflitos interiores.

A prece é apresentada como a filha primogênita da fé, pois é por meio dela que o Espírito encontra o caminho que o conduz a Deus. Quando oramos com sinceridade, no recolhimento e na intimidade do coração, estamos verdadeiramente em comunhão com o Criador. Nesse estado, os mistérios da vida vão se esclarecendo pouco a pouco, não por revelações extraordinárias, mas pela compreensão serena que nasce da paz interior.

Santo Agostinho utiliza uma linguagem poética para descrever os efeitos da prece na alma. Ele fala de uma libertação momentânea da matéria, na qual o Espírito se eleva, afastando-se das preocupações terrenas e entrando em contato com planos mais elevados da vida espiritual. Essa elevação não é fuga do mundo, mas fortalecimento íntimo para melhor vivê-lo.

A felicidade que a prece proporciona não é feita de prazeres materiais ou de desejos carnais. Trata-se de uma alegria serena, profunda, que não depende das circunstâncias externas. É uma felicidade silenciosa, que a linguagem humana muitas vezes não consegue traduzir, mas que se sente intensamente no íntimo do ser.

O texto também nos lembra que orar não significa apenas pedir alívio ou conforto, mas aceitar com coragem as próprias provas. Santo Agostinho nos convida a orar como Cristo orou, carregando sua cruz com amor e confiança em Deus. Jesus, mesmo diante do sofrimento extremo, mantinha-se em comunhão com o Pai, certo de que a dor não era o fim, mas um caminho para a vida verdadeira.

Assim também somos chamados a carregar nossas cruzes diárias — as dificuldades, os desafios, as dores — sustentados pela prece. Quando aceitamos nossas provas com fé e oração, sentimos as mesmas doces emoções espirituais que fortaleciam o Cristo: a certeza de que a vida não se limita à matéria e de que toda dor suportada com amor conduz à elevação do Espírito.

Concluímos, portanto, que a prece é fonte de felicidade real, não porque elimina automaticamente os sofrimentos, mas porque transforma o coração, ilumina a consciência e aproxima a criatura de Deus. Orar é beber de um manancial espiritual que renova, consola e fortalece, conduzindo-nos, passo a passo, à verdadeira paz da alma.

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Paz a todos.